sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Leonora: A Fiandeira

A cintilação úmida da tarde impõe seu azul aos talheres.
Guiado pelo pulsar dos relógios, o tempo escorre sua saliva: há fogo e intensidade, na languidez dessa tarde!
Teus seios, Leonora, recendem aos frutos colhidos no absurdo do tempo: rubores e rumores que se instalam na carne dessas horas. ( Plenifica-se o intumescido do sangue: certo desejo inscrito em teu corpo...)
No revoar das mãos, Leonora, deslocas o espaço da espreita para mais além. Para um lugar não situado na dor.
Teus quadris redesenham mansamente minhas medidas: sou novo nessa ânsia: colher o vôo claro de teu gozo, na insuficiência de minhas mãos...
Intumescem-me as romãs: seu odor sexualizado recende pelas estradas. Às margens e à beira dos caminhos, é seu súbito rebentar que nos fascina... 

Desescrita


“ A essência (...) não pode ser
inteiramente expressa pela
linguagem humana. Apenas o
sopro da vida, o espírito da
alma que perscruta a luz, a
compreende.”
Jacob Boehme










Relsin, duerpot, restron, luland, lóis, lalangue, e surjo do caos original das palavras como quem vem à tona após um longo mergulho. Tudo o que realmente sou borbulha freneticamente no mais profundo... e o espírito do deus sobrevoa a superfície das águas... E assim como “o céu é o coração da água, a água é o coração de tudo o que existe no mundo”. Em mim há sete espíritos que não tiveram começo nem fim; e os sete espíritos geram a eternidade em que habito. E nesta água que eterniza, banho meus olhos cansados da viagem. Mas há uma sede que essa água não alcança, e é para ela que me preparo. Há momentos em que somente se ouve, destas águas, o ruído: é então que me dissolvo - eu, que fui criado para que tudo existisse em função de mim; eu, pessoa prepotentemente discursiva - para dar lugar a escritura. Ou melhor, para destituir a escritura e instaurar a desescrita, o anti-texto, a desestrutura. Este rio é fruto de dolorosa arquitextura: inescrita, anti-fala, desescritura...E é aqui, atrás deste espelho, que te engendro, tu: fruto de descabidas cópulas: para que vejas, para que sejas, para que enfim estejas. E se num destes fragmentos estiver tua verdade, despreza-a, pois tudo aqui é miragem, tudo é vertigem, tudo é uma viagem rumo ao nada; onde jamais estive. Enquanto isso, as frutas sobre a mesa pulsam e o relógio dói-me no pulso. As frutas engendram em si a liberdade e o relógio encadeia-me na aridez do cotidiano. E quero romper a palavra em sua madureza de fruta inacabada. Quero romper o ermo nada em que pulsas...E já posso pressentir a mornidão da tua língua inócua sobre a pele áspera das minhas palavras; e tudo é um ensaio para que eu coloque diante de ti a mucosa úmida e latejante de meu discurso: vaginofálica palavra a te incitar os sentidos...

A Confissão do Escriba

Pediram-me, certa vez, que eu nomeasse a força por detrás da letra que se molda em minhas mãos...
E eu não soube precisamente o que dizer.
Do vocabulário que conheço, apenas uma palavra tem a tênue possibilidade de traduzir esse movimento: distância...
Talvez eu a tenha constatado na infância, na solidão de minhas fantasias, no assombro sutil diante das coisas mais corriqueiras. Ou talvez tenha surgido da minha incapacidade de moldar-me à maneira dos demais homens. Da impossibilidade de estabelecer-me na superfície da vida.
Quem sabe também, tenha sido por tua causa, Ruth, que em teu gesto prateado, evidenciaste as funduras e solidão de meus olhos de menino.
Ou tenha surgido da grande covardia de não mais me permitir amar, como também, da dificuldade intrínseca da letra em reproduzir-me o rosto anterior à Chegada. Ou ao fato de estar condenado , desde sempre, ao exílio de mim...
Não sei, Ruth, ainda não sei... 

Amarga Teologia

Dora, não sei o que te dizer. Creio que nosso modo de estar entre as coisas esteja se desgastando: sinto-me esmaecido diante dos fatos, qual uma fotografia há muito esquecida nas gavetas do dia...
Não sei, querida: eu também gostaria de saber o rumo de nossos sonhos, voltar-lhes à fonte, e banhar-me naquelas águas de expectativa e fé: mas turvaram-se, restou-nos apenas o sabor acre do não vivido. Talvez seja essa a cota paga para se avançar no tempo: deixar de lado as bagagens de esperança e contentar-se somente com o rumar frenético das coisas diante das absurdas janelas...
Quem sabe, Dora, o que foi feito de nossos amores de outrora? Reduzidos minimalisticamente a sorrisos e acenos distantes? Onde nossos olhos com que comemorávamos assombrados o desfile das coisas do mundo? Onde o espanto diante de tudo? O sabor da surpresa em cada mordida?
E se nos encolhêssemos? Se no enrodilhássemos para dentro: quem sabe desembocaríamos no lado oposto do existir, de onde nascem as águas do primeiro instante? Para que nele fizéssemos morada e comungássemos com as coisas simples e cintilantes da vida?
Tentemos, então... 

A Dançarina

Mulher das fontes do Oriente: em tua veste florescem o trigo, a campina e o amanhã.
Na mecânica de teus quadris, dormem, conjugadas, as duas partes do mistério. (Há resquícios, em ti, dos intermédios e dos mediterrâneos...).
Dançarina do Vento Sul: tua tez de âmbar desperta as sedes e o rumor das dunas...
Ecoam, em teu riso, os estilhaços dos amores mal-dormidos: no pão do teu sorriso, em sua massa mais densa, se elabora um antigo amargor...
Tens o cheiro da penumbra; tudo, em ti, é à meia-luz.
Como quem reside entre os tolos, de tudo gracejas: poucos provam do vinho último das tuas ruínas...
Quando andas, desabrigas os ventos, estilhaças os cântaros, recolhes os telhados das casas, silencias o mar: dispersas, enfim, a alcatéia de imbecis.
É que na flor do teu segredo reside a fonte das águas, o giro louco do tempo: a fome secreta do amor... 

À Beira dos Lagos

Estavam soltos - ele e ela - a passearem à beira do lago.
Havia harmonia e constância em seus movimentos. Ela, delicadamente, sorria, bebendo cada palavra sua, como quem prova do mel e da brisa de outras eras.
Ele - em seu olhar - cintilava como os risos de uma infância perdida: é que, em seus modos, havia o hálito secreto do tempo.
E estavam unidos pelo enlaçar das mãos, pelo entrelaçar dos fatos que os conduzira até ali: soltos - ela e ele - a passearem à beira de si...
No entanto, suas mãos eram água dentro da palma: com o gesto lento de quem recolhe pequenas ondulações, dissolviam seus dedos em azul e silêncio, mornos e adormecidos, buscando no crepúsculo o reflexo de seus rostos, repousados além da superfície das águas, em sombra clara e transparência imóvel... 

Participation Mystique


Tu não entendes: quero tudo outro: quero revirar as gavetas e os papéis de minha vida, para divisar a essência de tudo o quanto digo. Quero voltar ao instante primeiro, anterior à escrita de meus dias e saber-me o modo e a fonte. É disso que preciso: rasgar a placenta que me separa do momento anterior ao nascimento de tudo: quero comungar com a latência do existir.
Vês estas frutas? Como elas se entregam todas, sem qualquer medida de pudor? A água que bebes, por acaso, te solicita a resposta de algum de teus enigmas? Não é este teu cão, a se enrolar em nossas pernas, mais pleno que qualquer um de nós? Ou será que os teus uísques te impedem de vislumbrar a cegueira em que eu e tu vivemos? Olha lá fora, no pátio, e percebe como as coisas todas estão na rotação harmônica de si mesmas. Não se chocam, e nem se intumescem de questões. Nada lhes obstrui o rumar em direção ao colapso: nem um sonho turvo para atormentar-lhes de insônia a noite.
Vês o luar? O singrar das aves na busca do alimento? Como eu os invejo! Eu que desde sempre estive a me corroer de perguntas diante do absurdo de estarmos aqui. É que jamais tive a coragem, Virgínia, nem mesmo por um instante, de deixar-me estar diante das coisas, como esse rio que passa por detrás de tua casa: pleno da certeza de suas águas... 

A arquitetura das Mesas

A mecânica da mesa se impõe entre os demais artefatos da casa. Sua austeridade faz lembrar os laços antigos, os cerimoniais e as igrejas ( e toda sorte de conluios ). Seu porte, em altivez, traduz o gesto em riste das resignações familiares. É estranho o modo como ela se constrói toda, acima e além do cotidiano das casas. No lado oculto de suas pernas há o sigilo dos crimes: o incesto, as indefinições sexuais, as impudicícias das sociedades e do seio familiar.
Há, porém, aqueles que se deixam levar pela aparente tranqüilidade de sua superfície: ledo engano: suas águas são turvas e letais: como o amor, o desejo e as visões antes do sono.
Não que ela não se preste a outros fins: sua natureza compacta suporta o peso dos rituais e das sagrações, como convém aos utensílios do sacrifício e do rito... Servem-se dela também os fundamentos e os meandros da morte: muitos foram os senhores e nobres que tombaram sobre ela na agonia dos venenos e na eloquência das disputas senhoriais... 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tratado Sobre a Loucura


É que me perco diante das coisas...

Sempre me pareceu assim: ao avistar-me por meio dos demais modos de ser dos seres à minha volta, me vem logo a vertigem. Como se algo, no espaço vago entre as palavras e os seres dados do mundo, me tragasse quaisquer seguranças.

Mas nem sempre foi assim – houve um tempo de comunhão e solidez, um tempo em que, nesse vácuo, nessa região de
 brechas, eu erguera cidades, reinos, intrincadas construções.

No surdo rumor dessas edificações eu me estabelecera, a aguardar o tangível das coisas, a carne de sua presença – seu momento de brusco ardor e cintilação.
É que no princípio foi o sopro anterior a tudo: canto circeu a desentranhar a vontade do mundo; tambor báquico nas carnes de Apolo. E houve, após, o momento da não-palavra, da gradual e arfante iluminação cega, do tatear nas grutas: silêncio potente – latência caótica do mundo.
E na escuridão dessa estranha luz ( onde ainda assim havia o perigo de ser tragado por completo ) havia a não-voz dos objetos do mundo a incitar-me, a atirar-me para o não-ser das coisas, ao lugar anterior a qualquer pensar - instante primeiro de onde jorram o delírio, os sonhos e os estilhaços do tempo..

domingo, 30 de outubro de 2011

Ensaio Sobre o Choro

Eu estou sentado a poucos metros dela. E consigo vê-la claramente: suas roupas bem ajustadas ao clima e ao tom da própria pele. As costas firmes com que carrega a mochila.
Ela ainda é jovem. Talvez nisso esteja contida toda a beleza de sua figura: ela é jovem e chora!
Não me pergunto das razões do choro, que poderiam ser de todo banais. Não de uma banalidade imposta, mas de uma banalidade própria à sua juventude: talvez um namorado, uma amiga, um castigo mais severo dos pais...
Não olho para o choro e suas razões, olho para o choro em si mesmo. Nesse eclodir de fluídos e sons incontroláveis que a desfiguram. Nesse desabrochar abrupto de espasmos pelo corpo na solidão de seus poucos anos.
Olho-a, enquanto ela chora, assim como uma esfinge olha para outra, a tramar seus augúrios e enigmas.

Tenho de te fazer ver isso que essa noite me veio - preciso te contar.
E como farei se essas palavras são esguias e me escapam? Se nenhum som traduz o meu modo de percorrer estes cômodos; de estar entre estes móveis?
Nessa noite sinto-me toda luar e ondas fortes batendo num cais. Serei eu também composta da matéria vaporosa dessa intermitência?
Guardarei dentro de mim algo rochoso como madeira petrificada? - é além da seiva que eu estou!...
E nesse agora sinto-me impelida a te segurar mansamente, a conduzir teus passos para o interiror dessa coisa que quero dizer, que quer dizer-me.
Vem, estabelece comigo um pacto sem tempo e toma disso que tenho escondido nos frascos de minhas palavras.
Percebe esse meu outro dizer... Compreende esse meu modo todo único de estar ao luar...
Mas não é ; ainda não é!
É que estou no lado avesso das coisas te cantando uma ópera antiga em códigos secretos. Estou percutindo sons que jamais conheci para tornar tangível algo que apenas se entrevê.
É que estou toda aguda, rítmica e sonora tentando te contar isso: o meu residir marginal entre as coisas do mundo...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

As Três Coisas

        Há, na casa, três objetos que me causam demasiada estranheza: o televisor, o telefone e o relógio.
        Talvez isso me aconteça pelo modo incongruente com que eles se relacionam na semântica ilógica dos lares.
        É inaceitável concebê-los intimamente ligados ao torvelinho de fatos que se desenrola no interior de nossas vidas.
        O primeiro nos apresenta o descontínuo, o fragmentário, tal a chuvarada de imagens do inconsciente: o evoluir de seus espetáculos leva-nos à vertigem qual um aleph borgeano. Enreda-nos em seu profetizar e projetar de sombras a um além tempo, à margem terceira das coisas.
        O segundo traz-nos o espanto branco da estridência; seus metálicos e histéricos gritos lançam-nos ao imediato, à urgência de um recado, de um afeto, de um luto...
         Já o relógio, mais atento dos três, observa-nos, apenas, em nosso caminhar para morte, com seu cínico tic-tac.
     
     

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Os dedos de minhas palavras não conseguem tocar a realidade. Por mais que eu me permita a aproximação, sempre torno a escorregar naquele não-lugar entre mim e as coisas ao redor.
É este o meu ofício: lapidar esse espaço pétreo, essa lacuna em rocha que separa minha língua dos objetos sobre os quais orbito meu espanto.É que por mais que minhas papilas e pele se esfreguem na superfície dos corpos dados (quer naturais, quer artificiais) tudo será sempre virtualidade: a impressão sensualizada de uma interna e eterna incerteza.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Complexo de Ulisses

 


Curiosamente, nesses últimos dias, voltei a lidar com pintura...
O exercício da pintura em tela, para mim, de um modo que ainda não é de todo claro, está ligado à natureza dos surtos psicóticos.
Há, no fazer dessa arte, algo que mobiliza estranhos sentimentos. Como se, na tentativa de trazer algo à tona – à superfície da tela – a psique principiasse por desestabilizar-se..
É que talvez, longe da escrita, toda e qualquer outra expressão artística produza a loucura, pois nela não há o anteparo da letra a nos ocultar, a nos proteger. Sem a letra, tudo ruma ao caos, à aniquilação.
Temo um mundo sem palavras: há uma estranha sufocação contida nessa imagem!
Elas, as palavras, são como as correntes de Ulisses: impedem que seja ele arrastado pelos (en)cantos do imponderável. Às suas águas de potência e aniquilamento.
A palavra, em mim, funda o lugar-ser de meu Ulisses-Ego, amarra-o à realidade das formas, às representações. São elas que permitem a esse Ulisses íntimo seu regresso à "Ítaca". Lá onde ele comunga consigo, onde é igual a si mesmo...

(Carlos Soares. Escritos Adversos, Ed. Nova Ocultação )

Donana

Ao esgueirar-se, ela canta para a mornidão branca de sua cegueira.
Seu modo de lamber-se no estático ( novelo interior ) desse silêncio, de certo constrangem. Mas falam, a seu modo, de íntimos sabores e senhas que não nos ocorrem.
Ela é toda brenha, segredo e enigmas...
Compreendo-a na solidariedade de quem também fixou-se em regiões além dos mapas.
Vez por outra, como um equívoco, ela vem à superfície de suas águas de ecos, cacos e fonias para dizer a luz rude que recobre as coisas: a sordidez de meu pai, minha aspereza muda: o maldito caos que nos enlaça, miúdo e soturno...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Entre meus inúmeros cigarros, eu aguardava o eco de teus passos,em meu pátio interior.
Alta como a Lua hoje é, eu rumava escura e densa pelos labirintos da distância: em tudo havia um fragmento de teu nome, tua voz soava no rumorejar das águas...
E eu, a tecer-te as vestes, aguardava: na incerteza de teu retorno, na medida parca de minha esperança...
Eu atirara-me inteira na banalidade das coisas, apenas para esquecer-me da dor de ainda não estares aqui...
Mas hoje sei que não teci em vão: e que minha espera não fora o absurdo da loucura... 

domingo, 10 de julho de 2011


Neles, havia o leve acento do adeus... Mesmo enquanto sorriam, alheios àquilo que os ligava, certa sombra perpassava os gestos. Não saberiam definir de pronto o raro elo a fazer de um a extrema continuação do outro: sabiam apenas, e isso os encantava. E houve um tempo sem perguntas, onde tudo fluía natural como águas, como a brisa das palavras e do olhar. Se houve um choro, esse aconteceu em comum, tal qual quando almas aflitas e idênticas se cruzam por longos caminhos. 
Mas um deles resolveu dizer o que ali já havia. E as palavras são malditas, elas desacertam nosso passo em direção a qualquer paraíso. E então se perderam...
O outro, que estava, aos poucos, ganhando mais leveza e luz, tornou-se grave, como quem cuida de uma doença que exige certa cautela. E o que era ele, agora outro, acamava-se. Via-se doença: suas forças minadas pelos dias, sua seiva esvaindo na ardência desse vão...
E o que fora encontro, passou, lentamente, a ser injúria e desdita.

O Desvio das Águas









Éramos água. Eu e tu. Naquilo que sua natureza incerta e esquiva 
comporta.
Não falo da água empalhada dos copos, com sua rigidez de morte.
Falo das águas convulsas que brotam diante do espanto virginal da terra.
Falo da água em seu poder de esgueirar-se por entre as coisas do mundo.
E éramos assim: líquidos e cristalinos, um diante do outro. Concebíamos,
mesmo que abstratamente, a profundeza que nos havia...
Tu eras a fonte e eu, o rumorejar intermitente. Eu banhava meus 
olhos diante de ti como quem se procura no inverso dos rios, 
na contramão de seu destino. E eu fizera morada em tuas superfícies,
em um tempo em que, à semelhança do desespero das mãos,
nossos cursos se enlaçavam. 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Antropogênese





Aninhado na praia de escombros,
observo o giro do astro
enquanto a sombra do rosto foragido repõe a questão: E se a criança jamais existiu? 

Juliano Garcia Pessanha 


Desde cedo o mundo me assombrara. Tudo era vertiginoso em sua aparição...Para meus olhos ainda repletos do frescor da descoberta, o mundo era um lugar de espantos e suaves epifanias. Até mesmo meu corpo, que eu aprendera a manipular segundo a lógica dos desejos, era uma fonte borbulhante de descobertas e revelações... Além da investigação aplicada a minha natureza mais primeira, havia outro fascínio: a fatal atração pelo nocivo. Deixa-me explicar: eu, movida pela curiosidade própria dos recém chegados, sentia-me seduzida pelas formas de vida mais brutas. Eu percebia que, no seio do grotesco, palpitava uma vida que era espelho da minha. Era impelida por essa intuição que eu colecionava insetos e, com uma volúpia febril, abria-os, esquartejava-os. É que eu queria encontrar a essência vital que os determinava: eu queria defrontar-me com a vida e seus mistérios no coração do absurdo. E as sombras festejavam, no seio da terra, essa ânsia primitiva e pulsante revestida de infância. Mas não havia somente o grotesco. Havia também o fascínio pelo luminoso. E, ao sair das regiões mais baixas à procura de luz, defrontei-me com a criança... E a criança morava do outro lado da rua. Seu espaço era arquitetado com a matéria prima da existência. Ela era a personificação de um modo-de-ser que ainda me era interdito. E, inconsciente de minha condição de densidades e treva ( pois eu trazia em mim uma chaga anterior a mim mesma), aproximei-me da criança e, então, principiei a resplandecer... E esse encontro guardava os segredos de que hoje sou feita. E é somente por recordá-los que agora me reconstruo. E ela foi para mim um local seguro no qual atracar. Ela foi a visão arquetípica de uma ausência que constituiria meus caminhos, uma brecha da qual eu fora feita e para a qual eu rumaria continuamente. Minha vida, a partir da criança, seria uma marcha ininterrupta rumo ao lapso, um caminhar vertiginoso em direção ao fim. Mas o Deus disse: Fiat Lux, e findou-se o primeiro dia... Agora, em sua presença, meus dias eram cheios de suavidades e transparências. Mas não era sempre que a criança estava diante de meus olhares. Sua vida era cheia de reservas e silêncios. E foi a partir dela que aprendi a silenciar diante do impossível. É que há, em cada um de nós, um reino obscuro que nenhuma fala pode delatar. Sobre essa impossibilidade, eu, agora, soerguia meus instantes; e havia um acento poético a vibrar pelos ares...e ELE, que havia separado as águas entre o abismo e a expansão, que me havia apresentado a luz, marcou a criança como o luzeiro de meus dias, a indicar as épocas, os períodos e as estações. E tudo era virginal e  fresco... Isso porque uma verdade ancestral já se pronunciava na textura do que sou. Mas eu nada sabia acerca de ancestralidades, texturas e gestos tardios, pois acreditava viver na essência das horas, onde a comunhão com o Deus era profunda... e a criança, tranquilamente, mergulhava comigo no coração d’O Impossível. 
E o Deus chamou essa impossibilidade de Céu. E veio a ser manhã e veio a ser noitinha: segundo dia. E hoje, eu, que sou uma voz a errar, preciso dizer-te: sou uma construção moldada a partir dos fragmentos da criança que houve. Em seu lugar arde uma ausência... e por isso sigo a corroer os ossos dos dias na intenção de saborear aquele gosto primeiro, no centro vivo do olhar da criança que já não há...E talvez se dê o raiar de um terceiro dia, em que me seja permitido traçar uma espera: um frágil esboço para alegrar os olhos da minha criança ancestral...e tardia..



Do Ardor

"Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa.
 Seus gestos tornam-se brancos
e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la."
 ( A fuga, Clarice Lispector )


... aqui estou: há muito espero pelo teu chamado. As antigas areias que suprimiam meus gritos não tiveram êxito: e então, entre inúmeros fumos e olhares no interior da noite ( que nos engendrou e estabeleceu ), pronunciaste meu nome mais secreto e esquecido... Há um grito nas entrelinhas do que te escrevo: vê se consegues agarrá-lo com tua mão. Procura suster-me como uma idéia criada no profundo de teus abismos: pois fui despertada de uma região pantanosa e secreta. E te é impossível pronunciar o nome de onde eu jazia adormecida: mas vem, segura minha mão nessa treva e sigamos nosso protelado caminho. E quanto te tenho aguardado! É no interior dessa palavra que não dizes que reside meu intento: pois é de fogo e ardências o que tenho guardado para ti... Mas nem sempre fui assim: antes de teu chamado, eu era aquela que convivia com a amenidade parca das coisas: eu preparava o lanche de crianças e anotava recados ao telefone. Mas vieste como um vento em chamas e reduziste a cinzas meu trabalho de superfície: no dia que me invocaste, eu devorei nossos filhos e incendiei as impossíveis agendas. Atirei pelas janelas os antigos álbuns de retrato: é que depois de ti eu nunca mais me reconheceria... E é nas galerias desse meu canto, em seus ocultos corredores, que te espero. E sei que dirás de meu canto o monótono que é: é que minhas palavras se erguem a ti como um remoto e gregoriano rito. Porém, não é em latim que te canto, que é a língua dos santos, é em uma espécie de etrusco: algo impreciso e pagão como a sanha desse nosso amor...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Circe

" Meu canto é este tecido vivo  - nu -
que ofereço à tua alma."










Hoje, lembrei-me de ti, Augusto... Lembrei-me de tua voz resplandecente; de tuas mãos suaves a conduzirem-me por meus descaminhos; de teu caminhar ritmado (teus movimentos eram a poesia de teu corpo...).
Lembrei-me de teu olhar para o infinito de minh’alma, dos teus discursos sobre a natureza do amor e dos homens; do teu sorriso infantil e sem culpa... As tuas canções; da modulação de teus gestos; de tudo o quanto é teu e que ainda me plange. 
Eu, aqui em meu cárcere, passo os dias a tecer a trama de minha fala para que o tempo transcorra ameno na tua ausência.
Enquanto ganhas o mundo na esperança de encontrar-te, eu permaneço aqui, tecendo e destecendo minha linguagem, para depurar-me à tua espera.
Espero, meu amado Augusto, que nada te desvie da rota de ti mesmo. Que nenhum canto incerto faça divagar o teu olhar; que não te percas nos descaminhos de tua busca. Espero, enfim, que ao regressares tenhas te concluído e que, concluso, te possas ver inteiro.
Eu já não sou mais inteira. E é para preencher os meus vazios que me construo e desconstruo, que ergo à minha volta as paredes de um labirinto sintático, pois, diferente de ti, quero perder-me no falsear de minha língua-teia. Tornei-me a tecelã e o inseto incauto de minha própria rede. Pois se tu te completas na busca, eu, de minha parte, só conseguirei encontrar-me ao perder-me...
Que, ao esquecer-te, eu te transforme em algo semelhante aos hiatos de minha imprecisa malha: um lapso no vazio do meu tear...
Pois tornei-me a tecelã e o inseto incauto de minha própria rede. E é para preencher o meus vazios que me construo e desconstruo, que ergo à minha volta as paredes de um labirinto sintático... Eu já não sou mais inteira (...).
Espero, enfim, que ao regressares te concluas e que, concluso, te possas ver inteiro. Que nenhum canto impreciso faça divagar o teu olhar; que não te percas nos descaminhos de tua busca. Espero que nada te desvie da rota de ti mesmo.
Enquanto ganhas o mundo na esperança de encontrar-te, eu permaneço aqui, tecendo e destecendo minha linguagem, para depurar-me à tua espera. É que,  aqui em meu cárcere, passo meus dias a tecer a trama de minha fala para que o tempo transcorra ameno e m  nossa ausência.
É que lembrei-me das nossas canções; da modulação dos meus gestos; de tudo o quanto foi nosso e que ainda me plange. De meu olhar  para o infinito de tua alma. A tua voz resplandecente; do olhar suave a conduzir-me por estranhos descaminhos; de certo caminhar ritmado ( movimentos que eram a poesia de meu corpo...). Hoje, Augusto, lembrei-me de ti... – perdoa-me: foi um lapso, no vazio de nosso tear...

terça-feira, 10 de maio de 2011

NADJA

Estou neste jardim. Um de muitos de minha cidade. Nele, me vejo de gorro e luvas, minhas saias chegam até o chão... Sei que estou fumando, pois consigo perceber por vez ou outra que levo o cigarro à boca, e isso me dá um certo prazer... Mas, de repente, fecho os olhos e espero espero espero e... zás: toda a coisa some  e fico com a mão suspensa no ar, tentando agarrar algum vestígio. Antes disso, há uma espécie de lembrança: estou em uma larga avenida, quando cruzo, como de outras vezes, um antigo casarão. São três horas da tarde e o sol é agradável. Olho o casarão e então acontece: como num súbito, sinto-me emergir repentinamente de um lago. Percebo a respiração ainda forte e úmida do mergulho... E então me vejo novamente no jardim: agora estou sentada e folheio um livro de André Breton. Porém, em um momento que não sei precisar, aperto as pálpebras e vejo o que há no meio da minha escuridão: um tigre cinzento anda, impacientemente, de um canto a outro da jaula. Sua respiração é forte, áspera e quente. Seu caminhar é arrastado: quando, por fim, abro os olhos, minhas mãos estão úmidas do hálito do animal... Outro estilhaço: estou diante do casarão e sinto-me úmida e exausta do anterior mergulho: minhas pernas estão ainda trêmulas: lá dentro a fera me aguarda impaciente. Prossigo a leitura e percebo, em Breton, o quanto os encontros casuais são fundamentais para a efervescência da imaginação: vejo no canto do olhar uma mão em chamas apontando para o meu peito... Caminho lentamente pelo jardim até que finalmente me deparo com a jaula e seu tigre denso e agitado: sinto meus ouvidos zunirem. À porta do casarão, retiro uma das luvas – a esquerda – e giro lentamente a maçaneta. Penetro a penumbra da sala com movimentos cuidadosos: temo partir ao meio aquele silêncio revestido de pó e abandono. No fundo do corredor, vejo a fera assustadiça: há um enorme espelho. E nele, estou neste jardim...

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Viagem

...não mais isso: não mais a marcha absurda de tudo rumo ao inevitável fim! Não mais a espreita, a espera: os anúncios, nos movimentos aleatórios e vãos das estrelas... Talvez eu tenha observado por demais a ciranda dos astros em sua dança hipnótica. É que provei da equidistância entre o improvável e o impossível e isso me tragou por completo a razão: talvez, talvez... E enquanto te canto esta esgrima entre mim e as palavras, tudo talvez já esteja em rota de colisão: em
algum lugar prótons, nêutrons e elétrons lançam seus feitiços e fascínios sobre a idéia que tenho de mim... E quero romper os limites e as zonas fronteiriças do dizer, para agarrar a Coisa em seu bruto despertar ( há lascívia no que digo! )... E esta é uma viagem rumo ao profundo, ao avesso: onde se possa, por fim, desvendar o lado pulsante do que digo - atrás de minhas palavras há um objeto a pulsar angústias, um objeto que pulsa além de quaisquer sentidos: é isso o que quero te dar! Abre tua mão e recebe essa centelha viva que há em mim: Eu, que estou em todos os caminhos: no nascer do trigo, na violência das águas, na voragem do amor... Vem! Há sinos que dobram ao redor deste vôo em direção ao centro vivo do que digo - mesmo fugidia, espero que me possas alcançar... Desce comigo por estes penhascos rumo à pergunta que jamais me fiz: revela-me o lado repleto de anseios e fomes; estou faminta de mim! Eu: que reconstruo estas linhas com o aço de minha voz, sobre os abismos da morte: que grito, diante das fomes e dos delírios desse deserto que somos! E que haja, em tua alma, o pão necessário para esta interminável e feroz viagem...rumo ao nada!