sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Desescrita


“ A essência (...) não pode ser
inteiramente expressa pela
linguagem humana. Apenas o
sopro da vida, o espírito da
alma que perscruta a luz, a
compreende.”
Jacob Boehme










Relsin, duerpot, restron, luland, lóis, lalangue, e surjo do caos original das palavras como quem vem à tona após um longo mergulho. Tudo o que realmente sou borbulha freneticamente no mais profundo... e o espírito do deus sobrevoa a superfície das águas... E assim como “o céu é o coração da água, a água é o coração de tudo o que existe no mundo”. Em mim há sete espíritos que não tiveram começo nem fim; e os sete espíritos geram a eternidade em que habito. E nesta água que eterniza, banho meus olhos cansados da viagem. Mas há uma sede que essa água não alcança, e é para ela que me preparo. Há momentos em que somente se ouve, destas águas, o ruído: é então que me dissolvo - eu, que fui criado para que tudo existisse em função de mim; eu, pessoa prepotentemente discursiva - para dar lugar a escritura. Ou melhor, para destituir a escritura e instaurar a desescrita, o anti-texto, a desestrutura. Este rio é fruto de dolorosa arquitextura: inescrita, anti-fala, desescritura...E é aqui, atrás deste espelho, que te engendro, tu: fruto de descabidas cópulas: para que vejas, para que sejas, para que enfim estejas. E se num destes fragmentos estiver tua verdade, despreza-a, pois tudo aqui é miragem, tudo é vertigem, tudo é uma viagem rumo ao nada; onde jamais estive. Enquanto isso, as frutas sobre a mesa pulsam e o relógio dói-me no pulso. As frutas engendram em si a liberdade e o relógio encadeia-me na aridez do cotidiano. E quero romper a palavra em sua madureza de fruta inacabada. Quero romper o ermo nada em que pulsas...E já posso pressentir a mornidão da tua língua inócua sobre a pele áspera das minhas palavras; e tudo é um ensaio para que eu coloque diante de ti a mucosa úmida e latejante de meu discurso: vaginofálica palavra a te incitar os sentidos...

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