sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tratado Sobre a Loucura


É que me perco diante das coisas...

Sempre me pareceu assim: ao avistar-me por meio dos demais modos de ser dos seres à minha volta, me vem logo a vertigem. Como se algo, no espaço vago entre as palavras e os seres dados do mundo, me tragasse quaisquer seguranças.

Mas nem sempre foi assim – houve um tempo de comunhão e solidez, um tempo em que, nesse vácuo, nessa região de
 brechas, eu erguera cidades, reinos, intrincadas construções.

No surdo rumor dessas edificações eu me estabelecera, a aguardar o tangível das coisas, a carne de sua presença – seu momento de brusco ardor e cintilação.
É que no princípio foi o sopro anterior a tudo: canto circeu a desentranhar a vontade do mundo; tambor báquico nas carnes de Apolo. E houve, após, o momento da não-palavra, da gradual e arfante iluminação cega, do tatear nas grutas: silêncio potente – latência caótica do mundo.
E na escuridão dessa estranha luz ( onde ainda assim havia o perigo de ser tragado por completo ) havia a não-voz dos objetos do mundo a incitar-me, a atirar-me para o não-ser das coisas, ao lugar anterior a qualquer pensar - instante primeiro de onde jorram o delírio, os sonhos e os estilhaços do tempo..

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