"Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa.
Seus gestos tornam-se brancos
e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la."
( A fuga, Clarice Lispector )
... aqui estou: há muito espero pelo teu chamado. As antigas areias que suprimiam meus gritos não tiveram êxito: e então, entre inúmeros fumos e olhares no interior da noite ( que nos engendrou e estabeleceu ), pronunciaste meu nome mais secreto e esquecido... Há um grito nas entrelinhas do que te escrevo: vê se consegues agarrá-lo com tua mão. Procura suster-me como uma idéia criada no profundo de teus abismos: pois fui despertada de uma região pantanosa e secreta. E te é impossível pronunciar o nome de onde eu jazia adormecida: mas vem, segura minha mão nessa treva e sigamos nosso protelado caminho. E quanto te tenho aguardado! É no interior dessa palavra que não dizes que reside meu intento: pois é de fogo e ardências o que tenho guardado para ti... Mas nem sempre fui assim: antes de teu chamado, eu era aquela que convivia com a amenidade parca das coisas: eu preparava o lanche de crianças e anotava recados ao telefone. Mas vieste como um vento em chamas e reduziste a cinzas meu trabalho de superfície: no dia que me invocaste, eu devorei nossos filhos e incendiei as impossíveis agendas. Atirei pelas janelas os antigos álbuns de retrato: é que depois de ti eu nunca mais me reconheceria... E é nas galerias desse meu canto, em seus ocultos corredores, que te espero. E sei que dirás de meu canto o monótono que é: é que minhas palavras se erguem a ti como um remoto e gregoriano rito. Porém, não é em latim que te canto, que é a língua dos santos, é em uma espécie de etrusco: algo impreciso e pagão como a sanha desse nosso amor...
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