segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Complexo de Ulisses

 


Curiosamente, nesses últimos dias, voltei a lidar com pintura...
O exercício da pintura em tela, para mim, de um modo que ainda não é de todo claro, está ligado à natureza dos surtos psicóticos.
Há, no fazer dessa arte, algo que mobiliza estranhos sentimentos. Como se, na tentativa de trazer algo à tona – à superfície da tela – a psique principiasse por desestabilizar-se..
É que talvez, longe da escrita, toda e qualquer outra expressão artística produza a loucura, pois nela não há o anteparo da letra a nos ocultar, a nos proteger. Sem a letra, tudo ruma ao caos, à aniquilação.
Temo um mundo sem palavras: há uma estranha sufocação contida nessa imagem!
Elas, as palavras, são como as correntes de Ulisses: impedem que seja ele arrastado pelos (en)cantos do imponderável. Às suas águas de potência e aniquilamento.
A palavra, em mim, funda o lugar-ser de meu Ulisses-Ego, amarra-o à realidade das formas, às representações. São elas que permitem a esse Ulisses íntimo seu regresso à "Ítaca". Lá onde ele comunga consigo, onde é igual a si mesmo...

(Carlos Soares. Escritos Adversos, Ed. Nova Ocultação )

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