terça-feira, 10 de maio de 2011

NADJA

Estou neste jardim. Um de muitos de minha cidade. Nele, me vejo de gorro e luvas, minhas saias chegam até o chão... Sei que estou fumando, pois consigo perceber por vez ou outra que levo o cigarro à boca, e isso me dá um certo prazer... Mas, de repente, fecho os olhos e espero espero espero e... zás: toda a coisa some  e fico com a mão suspensa no ar, tentando agarrar algum vestígio. Antes disso, há uma espécie de lembrança: estou em uma larga avenida, quando cruzo, como de outras vezes, um antigo casarão. São três horas da tarde e o sol é agradável. Olho o casarão e então acontece: como num súbito, sinto-me emergir repentinamente de um lago. Percebo a respiração ainda forte e úmida do mergulho... E então me vejo novamente no jardim: agora estou sentada e folheio um livro de André Breton. Porém, em um momento que não sei precisar, aperto as pálpebras e vejo o que há no meio da minha escuridão: um tigre cinzento anda, impacientemente, de um canto a outro da jaula. Sua respiração é forte, áspera e quente. Seu caminhar é arrastado: quando, por fim, abro os olhos, minhas mãos estão úmidas do hálito do animal... Outro estilhaço: estou diante do casarão e sinto-me úmida e exausta do anterior mergulho: minhas pernas estão ainda trêmulas: lá dentro a fera me aguarda impaciente. Prossigo a leitura e percebo, em Breton, o quanto os encontros casuais são fundamentais para a efervescência da imaginação: vejo no canto do olhar uma mão em chamas apontando para o meu peito... Caminho lentamente pelo jardim até que finalmente me deparo com a jaula e seu tigre denso e agitado: sinto meus ouvidos zunirem. À porta do casarão, retiro uma das luvas – a esquerda – e giro lentamente a maçaneta. Penetro a penumbra da sala com movimentos cuidadosos: temo partir ao meio aquele silêncio revestido de pó e abandono. No fundo do corredor, vejo a fera assustadiça: há um enorme espelho. E nele, estou neste jardim...

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