quarta-feira, 26 de outubro de 2011

As Três Coisas

        Há, na casa, três objetos que me causam demasiada estranheza: o televisor, o telefone e o relógio.
        Talvez isso me aconteça pelo modo incongruente com que eles se relacionam na semântica ilógica dos lares.
        É inaceitável concebê-los intimamente ligados ao torvelinho de fatos que se desenrola no interior de nossas vidas.
        O primeiro nos apresenta o descontínuo, o fragmentário, tal a chuvarada de imagens do inconsciente: o evoluir de seus espetáculos leva-nos à vertigem qual um aleph borgeano. Enreda-nos em seu profetizar e projetar de sombras a um além tempo, à margem terceira das coisas.
        O segundo traz-nos o espanto branco da estridência; seus metálicos e histéricos gritos lançam-nos ao imediato, à urgência de um recado, de um afeto, de um luto...
         Já o relógio, mais atento dos três, observa-nos, apenas, em nosso caminhar para morte, com seu cínico tic-tac.
     
     

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