O homem, força agente e autônoma, reduz-se a cinzas, enquanto ela - a palavra - atravessa os tempos sempre dizendo e significando cada vez mais.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
O Espelho de Clarice
Estar diante do espelho : mistério profundo de quem mergulha ávido em si... E estou diante dele como quem se procura entre os objetos cotidianos da casa. Procuro em sua superfície de espanto e água os vestígios de um tempo que já não há. Nele é que se faz o mistério do mundo. Sei que, abaixo de sua pele de cristal e frieza, há os infernos incandescentes de mim...
De todos os objetos da casa, ele é o que me causa as maiores vertigens: seu fascínio de prata e magia arrasta-me pelos corredores até sua presença gélida e silenciosa, para dizer-me: ?...
Sei que ele é sagrado. Sei que ele foi elaborado por milênios nas entranhas da terra para que o homem fosse condenado a si. Pois o espelho é a meta final de todos nós. Um espelho é um susto na escuridão do quarto...E não sei que força me arrasta para suas águas de tempestade e ilusões: só sei que o quero e ele a mim...
Até mesmo a divindade sentiu-se fascinada pela idéia de ver-se...E é por isso que aqui estamos, para que a divindade, em sua Verdade absoluta, possa ver-se refletida por todos os séculos dos séculos. Pois a divindade só sabe amar o que lhe é espelho: e espelho translúcido. Esse foi o maior pecado de Lúcifer: crer que Deus fosse o espelho de si, que fosse ele a fonte da eterna beleza ali refletida...E ver-se no espelho foi um grito de angústia em seus desertos mais profundos...
Mas sei que o espelho é a grande blasfêmia que reside entre nós. Ele - segundo contam os povos antigos, anteriores à escrita e aos enganos da linguagem - surgiu entre nós para que víssemos a ferocidade dos tempos, em sua fome de animal insaciável, a corroer-nos, a desagregar-nos os sonhos mais antigos, a devorar a alegria e luminosidade de nossos olhos de outrora...
Todo espelho é herético: enreda-nos em seus labirintos de aparências e seduções para que durmamos o sono tranquilo dos condenados. Para que nos esqueçamos que a morte nos espreita pelos cantos, embora ele mesmo nos indicie sua proximidade inexorável e letal. O espelho é um dos engodos da morte...
E é em sua superfície de malignidade e encantos que me deixo conduzir, que me deixo levar para uma outra margem, onde meus gestos se cristalizam, onde sou lançado para a realidade bruta de estar, indigentemente, diante e distante de mim...
Come un percorso che si biforca
A Estrela:
Não, Pedro, não mais as esperas. As agonias surdas ao lado dos telefones pela madrugada. Não mais o jantar requentado no fogo brando da solidão e de tuas desculpas. Sinto-me uma forasteira em minha minha própria vida: alguém que não mais se reconhece aos espelhos.
De tudo, Pedro, ficou-me o medo de sussurrar teu nome entre as gentes. De ter dado a perceber qualquer rastro de ti. De dizer teu nome mesmo no entressonho da noite.
É que sou a sombra: uma duplicata opaca de tua covardia.
Tornei-me algo impronunciável em tuas conversas, um crime, um cadáver em um secreto baú...
Mas não te preocupes: Lídia cuidará para que morras devagar e satisfeito entre os teus... Sim, ela tem essa destreza em fazer tudo e todos acreditarem que a vida satisfaz. Quem sabe tu mesmo fiques satisfeito? quem sabe a tua escuridão não se apague com o convívio ameno que Lídia te dará? Pois comigo não estarias satisfeito: só te posso oferecer angustia e lapso, e isso já tens de sobra...
A Rocha
Tu não percebes, Estella, mas o tempo tem me enlouquecido. Sinto-me algemado a essa transitoriedade em cada detalhe de meus dias. E o relógio de pulso, adornado de jóias e futilidades, tem sido o incansável carcereiro. Ele, com seu olho frio e sem misericórdia, assiste ao declinar contínuo de meus ideais. Não poderia haver uma morte mais dolorosa que essa: olhar-se continuamente ao espelho e ver-se desagregado de si. Todas a minhas metas foram suspensas: vivo na corrente das horas como quem é arrastado por águas anteriores e imponderáveis. Se há um deus, ele esqueceu-se de mim. Seu prazer talvez seja ver-me rumar ao Nada como se eu fora um doente terminal que sovinamente se apega a cada instante vivido. Recusa-me ELE, em sua ardência de castigos, qualquer permanência que me torne pleno o existir. E me arrasto entre as gentes como quem dorme na escuridão de uma cegueira, como um morto sem nome ou passado...Apenas Lídia resplandece no quarto escuro que trago dentro e que continuamente procuro ocultar de todos... É que trago na alma o semblante dos desertos e a fala opaca dos que nasceram condenados ao degredo: há em mim um outro verbo a engendrar-me os dias...
O Labor:
Pedro, quando é que te darás conta de que meu sorriso é a beira de um precipício? Não percebes que ao fiar estas vestes - eu que estou desde sempre condenada a esta roca - o que procuro é entretecer um fundamento para os meus dias? Ou pensas que sou constituida apenas de superficialidades e aparências? É que este é o meu quinhão: sigo como um simulacro de mim, entre sorrisos e gestos simulados, para que não afundemos no lodoso de nós. Pois sei que há em ti uma água pantanosa e nociva, e temo infectar-me de suas extremas densidades... É que fui obrigada pelos tempos a parecer-te luminosa e intensa de claridades. Fui obrigada a tornar-me o fundamento impossível de nossas vidas: pois do contrário eu devoraria teus filhos com os olhos repletos de uma loucura mais antiga que o tempo. E nessa hora em que a loucura insiste em surgir em minha trama, um vento outro, mais profundo e obscurecido, percorre os corredores úmidos de nossa casa de sonhos e modos estudados. Há um câncer a minar-nos as forças remotas com que interpretávamos nossa tão medida felicidade: meu coração está exilado em uma torre perdida no fundo impossível de algum abismo.
Mas exiges,com teus modos soturnos, que eu seja toda esplendência e prata. Exiges de mim uma luz contínua para todas as tuas horas: e como eu desejaria fazer ver minha face de medo e horror! Como eu desejaria desnudar-me de minhas carnes e mostrar-te o avesso de nossas vidas mal tecidas. Como eu desejaria mergulhar absurda nesse silêncio atroz que nos envolve e romper essa ausência que te cerca e consome...
Mas vem, amor, e bebe de mim, pois é nessa hora que somos profundos, dolorosamente lúcidos...e sagrados... E que rumamos para o fundo sem fundo dessa outra margem que se constrói em ti e em mim...
O Exilado
Aqui estou, Hammael. Mas deixa-me contar o antes das coisas: a razão de eu estar diante de ti...
Os Homens Antigos, que falavam a Língua Primeira, anterior à Grande Confusão, intentaram construir-me. Detinham, eles, a Arte Sagrada dos Metais. Em razão disso, teceram-me, parte à parte, no ardor das forjas. Depois de erguido, na estatura média dos homens, passaram a inscrever em minha carne os segredos antigos da Grande Ciência.
Depois, coseram, com seu próprio alento, a pele que me ocultaria os medos, as injúrias e a vergonha...
Confinaram-me na Língua um Verbo. A ser proferido apenas no fim dos tempos: esconderam, sob o anseio de minhas papilas, as centelhas de um juízo final...
Cozinharam meus pés em líquidos estranhos e desconhecidos, para que eles ganhassem a dureza própria aos desertos e aos exílios.
Com sua saliva mais densa, fiaram-me sonhos, para que eu me agarrasse à vida: isso lhes daria a segurança de que eu não me rasgaria em pedaços ao despertar...
Colaram-me no peito a essência dos gritos. Untaram-me com óleos que me incitariam ao amor e aos desejos sem propósito...
E riscaram, na palma de minhas mãos e em minhas pupilas, trajetos falsos, delírios, miragens: para que, perdido, eu jamais deixasse de caminhar...
Os Homens Antigos, que falavam a Língua Primeira, anterior à Grande Confusão, intentaram construir-me. Detinham, eles, a Arte Sagrada dos Metais. Em razão disso, teceram-me, parte à parte, no ardor das forjas. Depois de erguido, na estatura média dos homens, passaram a inscrever em minha carne os segredos antigos da Grande Ciência.
Depois, coseram, com seu próprio alento, a pele que me ocultaria os medos, as injúrias e a vergonha...
Confinaram-me na Língua um Verbo. A ser proferido apenas no fim dos tempos: esconderam, sob o anseio de minhas papilas, as centelhas de um juízo final...
Cozinharam meus pés em líquidos estranhos e desconhecidos, para que eles ganhassem a dureza própria aos desertos e aos exílios.
Com sua saliva mais densa, fiaram-me sonhos, para que eu me agarrasse à vida: isso lhes daria a segurança de que eu não me rasgaria em pedaços ao despertar...
Colaram-me no peito a essência dos gritos. Untaram-me com óleos que me incitariam ao amor e aos desejos sem propósito...
E riscaram, na palma de minhas mãos e em minhas pupilas, trajetos falsos, delírios, miragens: para que, perdido, eu jamais deixasse de caminhar...
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
PREFÁCIOS PARA LIVRO NENHUM
Para Michel Foucault, Jacques Derrida, Italo Calvino e Carlo Emilio Gadda.
I. ( O Decreto Babilônico )
Nesta noite, enquanto a casa está silenciosa e certo medo percorre os cômodos, escreverei o Livro Final.
Aquele que também é o primeiro, que está na fonte, na origem de todos. O Livro de Liebniz. Escriptografo por Mallarmé. Perseguido pelos Campos. Dissecado por Artaud e Rimbaud.
O Livro do livro do Livro: meta e origem de toda palavra: o FIAT LITTERA das coisas.
E entrarei no livro pela banalidade de uma cena qualquer: uma mulher só, no meio da noite, que escreve, em uma casa onde todos a odeiam.
Em uma cadeira da cozinha, ela está sentada em pleno século XXI.
Enquanto isso, há greves na Europa, crises internacionais, crimes eleitorais na América Latina.
Em algumas ruas mais adiante, jovens rapazes, ao sabor da maconha e do vinho barato, se esfregam uns nos outros, enquanto suas namoradas falam de carros, bolsas e sapatos.
Próximo, vive uma fotógrafa, uma artista, presa na fantasia esgotada do amor. Ela leva continuamente homens e mulheres para sua cama mas jamais esquece a ideia de suicídio.
Nesse Livro há também uma terapeuta ouvindo as duras histórias de um escritor, vítima de maus tratos na infância, mudando e repensando sua vida.
Há o jovem universitário, contaminado por um anseio platônico-problemático por seu antigo professor. Ele, portanto ( e para tanto ), resolve sondar a mente humana: é sobre isso que lê dia após dia...
Não esqueçamos o pai violento, com seus delírios religiosos, sempre tratando como lixo seu filho intelectual. Isso se intensifica - esse ódio intenso - depois do filho haver descoberto seu caso/tara com uma menina de catorze anos, vinte e três anos atrás.
Mas há neste livro uma mãe a surrar violentamente um menino. A cena está congelada no exato momento em que ele tem por volta de quatro anos e ela o pega em plena masturbação : com uma faca apontada para seu rosto, promete cortar-lhe as mãos.
Há também um triste homossexual: ele se embriaga todas as noites, para esquecer que jamais voltará a ser amado como gostaria - e lê, desesperadamente, os contos de Caio Fernando Abreu, para não morrer...
Personagens que se encontram e que encontram, no narrado, significância e redenção para suas mal digeridas experiências, uma costura para o caos esparso do vivido.
E assim - no Livro - embora esta Babilônia seja um baldio, devastada pelo sarcasmo das hienas e pelo uivo dos coites, seus habitantes procuram viver como podem, apesar de tudo - e aqui o leitor use de discernimento na analogia.
II. ( Possíveis não-razões do Livro )
Esse Livro poderia ser também o livro de uma Catarse. Em que a escrita procura exorcizar seus fantasmas, dando-lhes a materialidade da palavra.
Poderia ser uma fuga. Uma mentira, uma vertigem. Um beijo ao luar depois de muito vinho e desejos reprimidos.
Esse Livro poderia ser uma dor, um engodo, um passatempo..
Tudo depende de que ponto o olhar do leitor pousará sobre ele.
Poderia também ser o fruto de um abandono, de um desamparo. Um grito no escuro de toda solidão. Um modo de se fazer entender.
III. ( Mea Culpa )
Mas tal Livro pode bem ser sobre um homem, que, acostumado a ser infeliz, morre e acorda quando a terra está transformada num paraíso.
Como ele não sabe viver sem ser acusado - e como sua índole não permite que cometa crimes efetivos - ele mesmo começa a se atribuir toda sorte de males e intenções escusas. Só que sua bondade está estampada em seus gestos mais frágeis e ninguém acredita nas histórias por ele contadas ( todos conhecem as boas intenções que o movem).
E ele termina eternamente triste, em um pesado nevoeiro, sentado sobre uma pedra, culpando-se por não ter culpa nenhuma.
IV. ( Doutras Leituras )
E ele fala também de um povo e de um deserto. Só que esse é um povo sem deus, entregue à própria sorte.
Sente-se, no folhear de suas páginas, a secura agreste das almas que caminham sem destino. Almas secas, esturricadas por dentro, rochosas. Em seu riso minguado há o pó das estradas eternas.
Esse Livro também é um exílio.
V. ( Sobre Memórias )
Numa das histórias contadas, no interior difuso do Livro, há dois jovens artistas que se embrenham em uma floresta.
No desejo intenso de estarem juntos sem serem vistos, arrastados por seu instinto - e essa é uma vontade ancestral que pulsa nas veias - eles são levados à beira de um secreto lago: e então, de mão dadas e silenciosos, mergulham inteiros na essência impossível de um entardecer.
VI. ( Por Sobre o Livro )
Porém agora, depois de muitos cigarros e xícaras de café, a escritora reflete melhor sobre o papel da escrita: sua natureza semiótica, suas potencialidades dissêmicas.
E nessa hora o Livro poderia falar do poder barthesiano da Palavra ( uma leitura desviada de João, em seu evangelho, poderia levar a pensar o mesmo ). De que toda palavra fala acerca - nas cercanias- do poder: fala por um poder, na direção de um poder.
Que a palavra - e, por aplicação direta, a escritura - é a "Vontade de Potência" em si. Pois mesmo o Zaratustra de Nietzsche - plagio da Palavra-Logos que se fez carne - fez ouvir sua intenção de potência na palavra, ao nos dizer a fonte, a origem, a passagem; o estranho retorno.
Nesse contexto, a escritora idealiza uma cena: uma Vestal ritualiza diante de um grande espelho de prata, para acessar estranhas visões. Mas apenas consegue divisar, na superfície enganosa do metal, a figura triste e solitária de um homem, que - ela por fim se dá conta - é sua própria imagem.
( A escritura que morde o próprio rabo: figura máxima de um poder ser ).
VII. ( A Grande Ironia )
Se assim o quisesse, mesmo independente de sua escritora ( e de mim, que o leio à medida em que ela escreve ), o Livro falaria - em seus interstícios - sobre o poder místico que as antigas civilizações devotavam à escrita, em seu peso religioso mais fundo.
Nele, a escrita seria abordada como a grande ironia das realizações humanas.
Tremendamente mais frágil que o homem, propensa à destruição pela ação das traças e do tempo, a escritura ganha uma perenidade que zomba da vida: ela resiste à morte de quem a produz, ultrapassa-o.
Nela estão os segredos da morte: o homem, força agente e autônoma, reduz-se a cinzas, enquanto ela atravessa os tempos sempre dizendo e significando cada vez mais.
Sim, esse Livro seria uma grande ironia.
I. ( O Decreto Babilônico )
Nesta noite, enquanto a casa está silenciosa e certo medo percorre os cômodos, escreverei o Livro Final.
Aquele que também é o primeiro, que está na fonte, na origem de todos. O Livro de Liebniz. Escriptografo por Mallarmé. Perseguido pelos Campos. Dissecado por Artaud e Rimbaud.
O Livro do livro do Livro: meta e origem de toda palavra: o FIAT LITTERA das coisas.
E entrarei no livro pela banalidade de uma cena qualquer: uma mulher só, no meio da noite, que escreve, em uma casa onde todos a odeiam.
Em uma cadeira da cozinha, ela está sentada em pleno século XXI.
Enquanto isso, há greves na Europa, crises internacionais, crimes eleitorais na América Latina.
Em algumas ruas mais adiante, jovens rapazes, ao sabor da maconha e do vinho barato, se esfregam uns nos outros, enquanto suas namoradas falam de carros, bolsas e sapatos.
Próximo, vive uma fotógrafa, uma artista, presa na fantasia esgotada do amor. Ela leva continuamente homens e mulheres para sua cama mas jamais esquece a ideia de suicídio.
Nesse Livro há também uma terapeuta ouvindo as duras histórias de um escritor, vítima de maus tratos na infância, mudando e repensando sua vida.
Há o jovem universitário, contaminado por um anseio platônico-problemático por seu antigo professor. Ele, portanto ( e para tanto ), resolve sondar a mente humana: é sobre isso que lê dia após dia...
Não esqueçamos o pai violento, com seus delírios religiosos, sempre tratando como lixo seu filho intelectual. Isso se intensifica - esse ódio intenso - depois do filho haver descoberto seu caso/tara com uma menina de catorze anos, vinte e três anos atrás.
Mas há neste livro uma mãe a surrar violentamente um menino. A cena está congelada no exato momento em que ele tem por volta de quatro anos e ela o pega em plena masturbação : com uma faca apontada para seu rosto, promete cortar-lhe as mãos.
Há também um triste homossexual: ele se embriaga todas as noites, para esquecer que jamais voltará a ser amado como gostaria - e lê, desesperadamente, os contos de Caio Fernando Abreu, para não morrer...
Personagens que se encontram e que encontram, no narrado, significância e redenção para suas mal digeridas experiências, uma costura para o caos esparso do vivido.
E assim - no Livro - embora esta Babilônia seja um baldio, devastada pelo sarcasmo das hienas e pelo uivo dos coites, seus habitantes procuram viver como podem, apesar de tudo - e aqui o leitor use de discernimento na analogia.
II. ( Possíveis não-razões do Livro )
Esse Livro poderia ser também o livro de uma Catarse. Em que a escrita procura exorcizar seus fantasmas, dando-lhes a materialidade da palavra.
Poderia ser uma fuga. Uma mentira, uma vertigem. Um beijo ao luar depois de muito vinho e desejos reprimidos.
Esse Livro poderia ser uma dor, um engodo, um passatempo..
Tudo depende de que ponto o olhar do leitor pousará sobre ele.
Poderia também ser o fruto de um abandono, de um desamparo. Um grito no escuro de toda solidão. Um modo de se fazer entender.
III. ( Mea Culpa )
Mas tal Livro pode bem ser sobre um homem, que, acostumado a ser infeliz, morre e acorda quando a terra está transformada num paraíso.
Como ele não sabe viver sem ser acusado - e como sua índole não permite que cometa crimes efetivos - ele mesmo começa a se atribuir toda sorte de males e intenções escusas. Só que sua bondade está estampada em seus gestos mais frágeis e ninguém acredita nas histórias por ele contadas ( todos conhecem as boas intenções que o movem).
E ele termina eternamente triste, em um pesado nevoeiro, sentado sobre uma pedra, culpando-se por não ter culpa nenhuma.
IV. ( Doutras Leituras )
E ele fala também de um povo e de um deserto. Só que esse é um povo sem deus, entregue à própria sorte.
Sente-se, no folhear de suas páginas, a secura agreste das almas que caminham sem destino. Almas secas, esturricadas por dentro, rochosas. Em seu riso minguado há o pó das estradas eternas.
Esse Livro também é um exílio.
V. ( Sobre Memórias )
Numa das histórias contadas, no interior difuso do Livro, há dois jovens artistas que se embrenham em uma floresta.
No desejo intenso de estarem juntos sem serem vistos, arrastados por seu instinto - e essa é uma vontade ancestral que pulsa nas veias - eles são levados à beira de um secreto lago: e então, de mão dadas e silenciosos, mergulham inteiros na essência impossível de um entardecer.
VI. ( Por Sobre o Livro )
Porém agora, depois de muitos cigarros e xícaras de café, a escritora reflete melhor sobre o papel da escrita: sua natureza semiótica, suas potencialidades dissêmicas.
E nessa hora o Livro poderia falar do poder barthesiano da Palavra ( uma leitura desviada de João, em seu evangelho, poderia levar a pensar o mesmo ). De que toda palavra fala acerca - nas cercanias- do poder: fala por um poder, na direção de um poder.
Que a palavra - e, por aplicação direta, a escritura - é a "Vontade de Potência" em si. Pois mesmo o Zaratustra de Nietzsche - plagio da Palavra-Logos que se fez carne - fez ouvir sua intenção de potência na palavra, ao nos dizer a fonte, a origem, a passagem; o estranho retorno.
Nesse contexto, a escritora idealiza uma cena: uma Vestal ritualiza diante de um grande espelho de prata, para acessar estranhas visões. Mas apenas consegue divisar, na superfície enganosa do metal, a figura triste e solitária de um homem, que - ela por fim se dá conta - é sua própria imagem.
( A escritura que morde o próprio rabo: figura máxima de um poder ser ).
VII. ( A Grande Ironia )
Se assim o quisesse, mesmo independente de sua escritora ( e de mim, que o leio à medida em que ela escreve ), o Livro falaria - em seus interstícios - sobre o poder místico que as antigas civilizações devotavam à escrita, em seu peso religioso mais fundo.
Nele, a escrita seria abordada como a grande ironia das realizações humanas.
Tremendamente mais frágil que o homem, propensa à destruição pela ação das traças e do tempo, a escritura ganha uma perenidade que zomba da vida: ela resiste à morte de quem a produz, ultrapassa-o.
Nela estão os segredos da morte: o homem, força agente e autônoma, reduz-se a cinzas, enquanto ela atravessa os tempos sempre dizendo e significando cada vez mais.
Sim, esse Livro seria uma grande ironia.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Não-História
Tenho de escrever uma história. Farei assim: deixarei as palavras traçarem um percurso e então seguirei: quem sabe seja mais fácil?
Estou cansada dos meus lirismos. Escrevi dezenas de cartas e fragmentos de amor para alguém que jamais houve. Mas agora quero o impossível: quero escrever o Nada!
E pensas que é fácil? Estou há séculos elaborando em mim essa história sobre coisa nenhuma: sinto que fui escolhida para isso.
Agora preciso de ar: preciso ter os pulmões plenos para esse grito que estou construindo no escuro da noite. Mas antes vou fumar: são necessários entorpecimentos e nicotinas para prosseguir nessa via crucis – não sou perfeita: que ninguém nunca me cobre semelhante heresia...
Algumas vezes sinto que vou agarrar essa história pelos pés: mas ela tem passos ágeis e silenciosos e sempre acaba me escapando. É que talvez tudo seja difícil assim como estou: na penumbra de uma vida. Justo eu que vivi o mistério e não fui fulminada no nascimento da pergunta – eu que perguntei a arquitetura fria e fugidia de um ovo ( todo ovo é toccata e fuga ). Mas uma coisa não me roubam: o olhar de sagrado que reservei às baratas!
Talvez alguém se lembre disso. Não importa: lembrar é uma das falhas da memória. Sua função primeira é guardar: a lembrança é sempre aquilo que escapou de suas garras.
Mas deixa eu te contar: ontem, na superfície cristalina de um lago que jamais conheci, vi a imagem de um mítico cavalo e não sei que coisa é essa que me deram.
É essa coisa que não conheço que eu deveria contar? Será essa minha dolorosa missão? Não sei: não estou preparada para viver o sagrado do Desconhecido em palavras: talvez eu não seja digna desse mistério: eu que soube silenciar...
Mas talvez eu esteja te contando uma história. Talvez, nas entrelinhas dessa coisa que não digo – dessa história que não frutifica, que não deixa amadurecer seu pomo rubro e suculento (e há nisto o milagre oriental das romãs e seus desejos secretos) – talvez eu já esteja te contando o drama dessa não-história que não vinga, que não deixa entrever seu sutil desabrochar. É que estou tateando o dizer desse algo cintilante e pontiagudo que não diz: mas que apenas me martiriza...
Estou cansada dos meus lirismos. Escrevi dezenas de cartas e fragmentos de amor para alguém que jamais houve. Mas agora quero o impossível: quero escrever o Nada!
E pensas que é fácil? Estou há séculos elaborando em mim essa história sobre coisa nenhuma: sinto que fui escolhida para isso.
Agora preciso de ar: preciso ter os pulmões plenos para esse grito que estou construindo no escuro da noite. Mas antes vou fumar: são necessários entorpecimentos e nicotinas para prosseguir nessa via crucis – não sou perfeita: que ninguém nunca me cobre semelhante heresia...
Algumas vezes sinto que vou agarrar essa história pelos pés: mas ela tem passos ágeis e silenciosos e sempre acaba me escapando. É que talvez tudo seja difícil assim como estou: na penumbra de uma vida. Justo eu que vivi o mistério e não fui fulminada no nascimento da pergunta – eu que perguntei a arquitetura fria e fugidia de um ovo ( todo ovo é toccata e fuga ). Mas uma coisa não me roubam: o olhar de sagrado que reservei às baratas!
Talvez alguém se lembre disso. Não importa: lembrar é uma das falhas da memória. Sua função primeira é guardar: a lembrança é sempre aquilo que escapou de suas garras.
Mas deixa eu te contar: ontem, na superfície cristalina de um lago que jamais conheci, vi a imagem de um mítico cavalo e não sei que coisa é essa que me deram.
É essa coisa que não conheço que eu deveria contar? Será essa minha dolorosa missão? Não sei: não estou preparada para viver o sagrado do Desconhecido em palavras: talvez eu não seja digna desse mistério: eu que soube silenciar...
Mas talvez eu esteja te contando uma história. Talvez, nas entrelinhas dessa coisa que não digo – dessa história que não frutifica, que não deixa amadurecer seu pomo rubro e suculento (e há nisto o milagre oriental das romãs e seus desejos secretos) – talvez eu já esteja te contando o drama dessa não-história que não vinga, que não deixa entrever seu sutil desabrochar. É que estou tateando o dizer desse algo cintilante e pontiagudo que não diz: mas que apenas me martiriza...
A Terceira Margem da Alegria
Acho que agora descobri: e é como se sempre estivesse aqui... Como eu não percebera? Será que vivia tão ávida e sôfrega que a coisa me escapava por completo? Mas agora eu tenho: e a quem tem, muito mais será dado...
E tudo aconteceu sem que houvesse de minha parte qualquer intenção: talvez isso torne ainda mais válido. Fui guiada por uma espécie de descuido alerta: meu momento mais raro foi de uma total desatenção!
Não sei exatamente precisar quando foi, só sei que eu estava envolta por uma certa bruma, algo que se confundia com a fumaça de meus intermináveis cigarros. E, então, a coisa se deu: no meio do furacão obscuro da minha vida, eu vi...
Sim, eu vi: seu aspecto era sutil e um tanto singelo. Nela, havia todas as coisas pelas quais eu houvera passado. As cartas de amor jamais enviadas, a palavra estilhaçada na boca no momento mais delicado do amor...
E eu não sofria! Era apenas com um certo susto, que eu via minha vida anterior desenrolada diante de meus olhos. Era apenas uma iluminação lenta e gradativa, que me levaria, enfim, a essa espécie de Nirvana em que estou agora imersa...
É isso, sim: os céus se abriram sobre minha cabeça, justo para mim que nunca estive à margem de nenhum Jordão. E o meu deserto era sutil: me foi dado entrar nele pelas pequenas brechas do dia, pelos lapsos da palavra na sua insuficiência de dizer a exatidão das coisas: meu deserto estava incrustrado na lacuna breve dos instantes: e eu me atirava inteira nele!
E tudo aconteceu sem que houvesse de minha parte qualquer intenção: talvez isso torne ainda mais válido. Fui guiada por uma espécie de descuido alerta: meu momento mais raro foi de uma total desatenção!
Não sei exatamente precisar quando foi, só sei que eu estava envolta por uma certa bruma, algo que se confundia com a fumaça de meus intermináveis cigarros. E, então, a coisa se deu: no meio do furacão obscuro da minha vida, eu vi...
Sim, eu vi: seu aspecto era sutil e um tanto singelo. Nela, havia todas as coisas pelas quais eu houvera passado. As cartas de amor jamais enviadas, a palavra estilhaçada na boca no momento mais delicado do amor...
E eu não sofria! Era apenas com um certo susto, que eu via minha vida anterior desenrolada diante de meus olhos. Era apenas uma iluminação lenta e gradativa, que me levaria, enfim, a essa espécie de Nirvana em que estou agora imersa...
É isso, sim: os céus se abriram sobre minha cabeça, justo para mim que nunca estive à margem de nenhum Jordão. E o meu deserto era sutil: me foi dado entrar nele pelas pequenas brechas do dia, pelos lapsos da palavra na sua insuficiência de dizer a exatidão das coisas: meu deserto estava incrustrado na lacuna breve dos instantes: e eu me atirava inteira nele!
O Desevangelho do Exílio
“Penso que esta experiência
foi decisiva para minha vida
futura. Uma vida que sempre
quis escapar da superfície iluminada
do mundo administrado para poder
encontrar a consangüinidade do
mistério das coisas.” Juliano Garcia Pessanha
foi decisiva para minha vida
futura. Uma vida que sempre
quis escapar da superfície iluminada
do mundo administrado para poder
encontrar a consangüinidade do
mistério das coisas.” Juliano Garcia Pessanha
....
Eu nascera no absurdo de uma família. Nem mesmo sei se é correto usar esse nome: era um agrupado de gentes que insistia por viver, mesmo sob o massacre da própria ignorância e brutalidade. Suas falas, quando estruturadas, eram sempre o exasperante do nervosismo. Deles não fluía nem mesmo uma gota do assombro de aqui estarmos em meio ao abismo. Jamais cogitavam a possibilidade do nunca haver. Viviam no dado, como algo justo e sustentado, sem ao menos desconfiar da precariedade de tudo.
Nesse meio eu era a criatura de estranhamentos: tudo ao redor feria minha pele ainda fina, pois eu não aprendera a encouraçar-me na animosidade que os sustentava. Nossa comunicação fora, desde sempre, fundamentada no equívoco: não havia na língua, pátria que nos aninhasse em comum.
É que eles não compreendiam o chamado que me exigia e interrogavam-se uns aos outros sobre a peculiaridade de tudo o quanto era meu. Jamais lhes ocorrera que eu trazia ainda em mim as marcas da escuridão anterior a qualquer surgimento, e que minha língua era apenas a extensão do cantar das estrelas e do infinito que nos sediava.
Por isso, fiz minha casa nas zonas mais distantes do exílio, para que pouco a pouco eles deixassem de notar minha presença: e foi fácil: eles tinham muitas fomes e empenhavam-se por demais nelas, para darem atenção ao grito escuro que se formava em meus olhos: é que em todos os meus gestos eu só sabia fazer evocar o Grande Mistério que ali nos trouxera, e isso lhes causava o mal-estar do desconforto e do medo...
O Fio de Aryane
...descera lenta, cada degrau. Em seu corpo, tudo recendia ao dia anterior, cujo frescor estabelecera-se intacto. No umbral de seu sorriso, morava a essência dos incensos e dos ritos mais antigos. Trazia, consigo, o pão sovado da infância. Na pele, as vivências intensas e silenciosas com que desvelara o mundo: tudo nela era rota e rumo: o giro dos barcos na agonia de um cais... Havia ventos no modo com que silenciosamente se dirigia às coisas: a leveza de seus passos guiava-nos por estranhos caminhos: ela era luz e chegada, rumor de mundo, ao fim dos ais.
Lembro-me do dia em que a conhecera: seu modo de andar pela casa, de acercar-se de minha relação de amizade com seu irmão; sua maneira discreta de inteirar-se de tudo, sem condenar coisa qualquer. E apaixonei-me por seu modo de certificar-se das coisas: diante dela, eu não era mais um segredo: eu estava aberto para seus olhos de irmã longínqua...Nela, em seu semblante, no calor pálido de seus braços, eu tivera a certeza de que fora, por fim, bem recebido. Seu perfume, no momento cúmplice de nossos abraços, fora, durante algum tempo, o meu secreto abrigo...
Lembro-me do dia em que a conhecera: seu modo de andar pela casa, de acercar-se de minha relação de amizade com seu irmão; sua maneira discreta de inteirar-se de tudo, sem condenar coisa qualquer. E apaixonei-me por seu modo de certificar-se das coisas: diante dela, eu não era mais um segredo: eu estava aberto para seus olhos de irmã longínqua...Nela, em seu semblante, no calor pálido de seus braços, eu tivera a certeza de que fora, por fim, bem recebido. Seu perfume, no momento cúmplice de nossos abraços, fora, durante algum tempo, o meu secreto abrigo...
Isto é meu Corpo
Ela andava escura nos últimos dias. Ninguém mais ouvia seus risos... Estava a enovelar-se para dentro: estranha crisálida a envolver-se nas tramas de si: surgiria por fim o espanto? O irromper de fascínio diante de tudo? Não se poderia afirmar.
Não era por primeira vez que vivia desses momentos: tempo de atar as tramas soltas do tempo, de clamar aos ventos, com o olhar absorto, acerca de coisas não ditas: era um tempo de atavismos esse em que ela singrava por outros mares: se houvera rochedos, seu silêncio os ocultava na devida medida.
Sentia-se livre e tola como as coisas que florescem ao acaso dos dias: era com certo cuidado que ela sorvia lentamente, a cada respiração, o hálito fresco do ar. Podia-se dizer dela que vivia na iminência de uma grande sutileza, e que uma profunda descoberta logo a assaltaria. E rumava, lentamente, para águas mais e mais profundas...
E era lento seu rumar. Ela havia esboçado, desde sempre, uma natureza propícia ao desagregar constante e contínuo. O modo precário com que se erguera diante dos eventos do mundo indiciava seu destino: o rumo sem fim, na esguia natureza das águas.
Mas nem sempre fora assim: houve um tempo de concretude e certezas. Um tempo de lavouras e colheitas reais, na gratidão mediterrânea de suas mãos: tudo recendia ao lavrar de terras incultas: época adequada para o plantio de suas próprias sementes.
Não que ela ousasse se acreditar, um dia, concluída: ela conhecia sua natureza de rio sem tréguas, soubera desde a infância antiga que jamais houvera um porto para a natureza inconstante dos seus. É que elegera para si, como ponto de chegada e estranha finalidade, o fazer bruto das coisas. Via-se como fruto a maturar-se no ninho do tempo: seu mel seria colhido pelas mãos ideais de um futuro.
E havia - nesse tempo de assar os pães, de colher a água íntima do tempo, na atividade soturna das cisternas - o lampejo de uma família...
Havia a presença quase esboçada de um marido, sempre atento à mesmice dos afazeres, e a exasperação alegre de crianças que anunciavam as chuvas outonais. Havia a crença no amor e na perpetuidade das coisas, mesmo que distantes e esmaecidas.
E ela consagrava-se ao sovar dos pães, como quem prepara o próprio corpo para um sacrifício outro: algo tão sagrado que ainda não fora aprisionado em um nome: é que havia algo de santidade e devotamento no contato das coisas da terra - na aspereza do trigo, nas castidades do leite - com suas mãos. Ao moldar os pães, era seu corpo que se acariciava diante da exuberância agrícola do mundo. A fome do Outro era sua razão e seu propósito...
Mas agora, que estava imersa na turbidez das águas, ferida por sua violência, ela procurava agarrar-se às coisas como quem se atém ao estilhaço de uma vida: um passo em falso e tudo ruiria. Seria tragada, sem ao menos provar as dádivas de uma misericórdia.
E ao decantar as terras, para o vindouro dos frutos, indagava: “qual será por fim meu rosto, quando eu, solene, me deparar com o outro lado do Abismo?”...
EXODUS
Talvez viver seja isto: a mordida profunda, o mastigar convicto, em meio à exuberância selvagem do Mundo... Mas não te surpreendas: é que há um "quê" de paraíso perdido, em tudo aquilo que te digo.
Das coisas que me recordo, apenas poucas tiveram o êxito de perdurar na memória: sigo, deixando pelo caminho minha história pregressa. Não que ela não me seja importante – jamais eu blasfemaria desse modo – é que me entrego toda diante das coisas: sou feita da ânsia do novo: meu desejo do amanhã transcende qualquer gesto.
E eu queria poder deixar de lado esse laço, para atirar-me na atualidade das coisas: eis o grande segredo. Dizem que apenas os etruscos o conheciam, mas ele se perdeu com sua língua e seu modo único de existir entre as gentes. Em parte eu o tenho, como alguém que recebe um embrulho, mas não é apto para abri-lo; como alguém que ganha um espelho e não sabe o que nele vê: esse segredo dizimaria famílias, colocaria nações inteiras em plena histeria, faria ruir templos e reinos.
”Não estejais ansiosos de coisa alguma“ – com isso ele nos condenou à terra da loucura; a rastejarmos pelos séculos dos séculos, em busca da água de algum amanhã. Expôs nossa nudez e nossa vergonha: para tal crime jamais haveria perdão!
E me resta, apenas, jogar com impossibilidade das coisas, no espírito eterno da letra. Vê-la fluir diante de meus olhos: eu, que desde sempre estive condenada a essa solidão. Eu, que me acreditara inteira, desde o dia em que me fiz a Grande Pergunta. Eu: a exilada, a errar pelo deserto dos dias, sem a esperança de leite ou mel; sem os refrigérios de qualquer maná...
Da Felicidade
A casa estava abarrotada de velhos e crianças sem sentido. Talvez, no fundo de algum copo, estivessem os dias perdidos, um paliativo para o tédio de tudo.
As janelas ardiam: era uma tarde nos trópicos...
A curiosidade tola das crianças revirava as anáguas das senhoras. Para tudo havia um riso pronto: certa alegria empalhada, que recendia à natureza morta.
Tudo exalava cansaço e exasperação. Mesmo os adolescentes - na pureza depravada de seus anos - erravam cegos de quarto em quarto: o calor os fustigava.
E havia, em torno da mesa, certa expectativa: todos comiam resignados, como se um Deus pairasse sobre tudo, em fulgor e solenidade. Havia certa agitação, no cômodo ao lado, mas seus gritos e risos soavam como um rumor distante, vindos de um tempo sem nome.
A dona da casa se agitava em sorrisos e meneios, imbuída da responsabilidade de tornar todos satisfeitos. O marido, austero e cerimonioso, sorria com o olhar de aprovação: a fome tornava todos iguais, na ânsia das coisas. Além dela, apenas a democracia das mortes.
A filha mais moça não comia: olhava para tudo e todos como se estivesse em vias de uma descoberta: tudo soava à tensão de um irromper, suas veias pulsavam pelo efeito dos vinhos. Ela era uma solitária.
Nos Jardins da casa, as empregadas riam ruidosamente e sem pudor. Tudo estava impregnado daquela euforia sôfrega. E eles aguardavam - como que com dores de parto - a aprovação alheia: estar diante do outro era a razão do evento.
Mas foi como de súbito, e, sem avisos,que todos começaram a ser tomados pelo tédio. As crianças transpiravam em cascatas sua irritação. As criadas olhavam desconfiadas para todos, como quem esconde um crime. Os convivas sofriam de olhos baixos...
Então, todos começaram a retirar-se.
Os rumores não mais se ouviam, apenas um estilhaço de riso ou conversa amena. Tudo foi silenciando, no declínio da tarde, como se fosse necessário hibernar após tão lauta refeição.
Eles haviam comungado com a satisfação das coisas e agora só lhes restava dormir. É que a felicidade era agora uma chaga: e precisaria ser extirpada com longas e pesadas horas de sono...sono...
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Há dias...
É que tem dias mais secos, mais ásperos: dias em que é difícil até mesmo trazer alguma seiva lá de baixo.
Nesses dias, nada me toca ou compreende: o frescor sagrado dos pães, a sinfonia surda das águas, o grito preto do café sobre a mesa. Nem mesmo o cigarro me quer ou fascina.
São dias em que ando tonta por cômodos escuros, esgueirando-me por paredes, cuidadosa a cada passo. Dias em que tudo me exaspera: meu riso, meu choro, meus copos... E é quando me canso de mim: de meu tom, dessa secura que me toma, da estranheza que floresce em cada quarto... desse meu secreto modo de estar entre os esgotados, os desvalidos. Entre os que desfilam, sedentos, no desconcerto do mundo...
Nesses dias, nada me toca ou compreende: o frescor sagrado dos pães, a sinfonia surda das águas, o grito preto do café sobre a mesa. Nem mesmo o cigarro me quer ou fascina.
São dias em que ando tonta por cômodos escuros, esgueirando-me por paredes, cuidadosa a cada passo. Dias em que tudo me exaspera: meu riso, meu choro, meus copos... E é quando me canso de mim: de meu tom, dessa secura que me toma, da estranheza que floresce em cada quarto... desse meu secreto modo de estar entre os esgotados, os desvalidos. Entre os que desfilam, sedentos, no desconcerto do mundo...
Funeral da Infância ( escrito pessoano )
Mais uma vez estou diante deste labirinto: eu, que hoje sou obrigado a viver a medida dos velhos.
Não me sei o sentido ou a direção.
Foram tantos os rumos ( no que eu era de projetos e sonhos de alegria ) que perdi-me de mim.
Novamente direi a ti: dá-me tua mão...
Estende tua espera na hora deste meu abandono. ( Quem dera eu pudesse estilhaçar os antigos caminhos e migrar à fonte primeira, lá, onde reside, intacta, a semente de meus dias! Quem dera eu pudesse desnudar-me do que me tornaram: deitar fora essa vileza, vomitar aquilo que fizeram de mim...)
Mas este mármore do papel confunde-me. Sua alvura cega-me para tudo o mais. ( ao redor, assiste-me a ruína de tudo o quanto eu quis!).
Tornei-me banal como os demais. Há na minha fala a sobriedade árida dos que há muito partiram de si. Sigo como um escombro de quem fui – e, Oh!, quanto eu não daria pelo riso da criança degolada no momento mais nobre do amor! Onde estás, meu pequeno, que não mais ouço teus passos tímidos pela casa corroída? Onde teus mitos? A crença nos demais? A rara e absurda força de amar a todos com a largueza de um rio?
Mataram-te, minha criança! Arrastaram teu corpo vazio pelos dias e apenas isso.
És para mim apenas a lembrança esparsa e confusa de algum poema. Um certo calor ao pôr-do-sol, hoje muito distante de mim...É que meteram a chave de eu ser feliz num bolso que não sei – e hoje vivo a procurá-lo...
Não me sei o sentido ou a direção.
Foram tantos os rumos ( no que eu era de projetos e sonhos de alegria ) que perdi-me de mim.
Novamente direi a ti: dá-me tua mão...
Estende tua espera na hora deste meu abandono. ( Quem dera eu pudesse estilhaçar os antigos caminhos e migrar à fonte primeira, lá, onde reside, intacta, a semente de meus dias! Quem dera eu pudesse desnudar-me do que me tornaram: deitar fora essa vileza, vomitar aquilo que fizeram de mim...)
Mas este mármore do papel confunde-me. Sua alvura cega-me para tudo o mais. ( ao redor, assiste-me a ruína de tudo o quanto eu quis!).
Tornei-me banal como os demais. Há na minha fala a sobriedade árida dos que há muito partiram de si. Sigo como um escombro de quem fui – e, Oh!, quanto eu não daria pelo riso da criança degolada no momento mais nobre do amor! Onde estás, meu pequeno, que não mais ouço teus passos tímidos pela casa corroída? Onde teus mitos? A crença nos demais? A rara e absurda força de amar a todos com a largueza de um rio?
Mataram-te, minha criança! Arrastaram teu corpo vazio pelos dias e apenas isso.
És para mim apenas a lembrança esparsa e confusa de algum poema. Um certo calor ao pôr-do-sol, hoje muito distante de mim...É que meteram a chave de eu ser feliz num bolso que não sei – e hoje vivo a procurá-lo...
Song to the Siren
'Sail to me, sail to me, let me enfold you.
Here I am, here I am, waiting to hold you.'
( Tim Buckley )
Sou eu essa ciranda de palavras? Essa dança que não chega a lugar algum? Não, o meu É é algo no centro escuro da coisa, de onde não há volta.
O meu É é mais secreto: é o lugar onde gravito meus gestos. Como numa sinfonia que, ao ser toda para fora, voltada para um público anônimo, guarda para si o melhor: as secretas nuances, as sutis variações. Perceptíveis, apenas, aos mais atentos, aos de gosto apurado: àqueles que andam entre as coisas sem fazer muito ruído.
Meu nome é um Não. Um decisivo Não. Meu lugar é este centro impreciso em que as palavras, camada por camada - como num trabalho de magma lento e paciente - ocultam o de mais vibrante. É que meu nome é isto: (..............).
Sim, eu sei que teus ouvidos não captaram, é que eu vibro toda numa freqüência infra-sônica. Sou percebida apenas pelos de hábito noturno que, como eu, aprenderam a se esgueirar pela treva sem macular-se. Sim, há algo de mim no deserto da noite que teus olhos ainda não veem. Sou o avesso da luz de teu rosto, a cintilar nesta procura. Um farol que arrasta às rochas mais pontiagudas.
Sei do teu nome, das tuas tardes febris. Conheço cada estilhaço do teu olhar. O segredo das vísceras. O perfume aconchegante de tuas coxas. O teu silencioso grito...
Here I am, here I am, waiting to hold you.'
( Tim Buckley )
Sou eu essa ciranda de palavras? Essa dança que não chega a lugar algum? Não, o meu É é algo no centro escuro da coisa, de onde não há volta.
O meu É é mais secreto: é o lugar onde gravito meus gestos. Como numa sinfonia que, ao ser toda para fora, voltada para um público anônimo, guarda para si o melhor: as secretas nuances, as sutis variações. Perceptíveis, apenas, aos mais atentos, aos de gosto apurado: àqueles que andam entre as coisas sem fazer muito ruído.
Meu nome é um Não. Um decisivo Não. Meu lugar é este centro impreciso em que as palavras, camada por camada - como num trabalho de magma lento e paciente - ocultam o de mais vibrante. É que meu nome é isto: (..............).
Sim, eu sei que teus ouvidos não captaram, é que eu vibro toda numa freqüência infra-sônica. Sou percebida apenas pelos de hábito noturno que, como eu, aprenderam a se esgueirar pela treva sem macular-se. Sim, há algo de mim no deserto da noite que teus olhos ainda não veem. Sou o avesso da luz de teu rosto, a cintilar nesta procura. Um farol que arrasta às rochas mais pontiagudas.
Sei do teu nome, das tuas tardes febris. Conheço cada estilhaço do teu olhar. O segredo das vísceras. O perfume aconchegante de tuas coxas. O teu silencioso grito...
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