“Penso que esta experiência
foi decisiva para minha vida
futura. Uma vida que sempre
quis escapar da superfície iluminada
do mundo administrado para poder
encontrar a consangüinidade do
mistério das coisas.” Juliano Garcia Pessanha
foi decisiva para minha vida
futura. Uma vida que sempre
quis escapar da superfície iluminada
do mundo administrado para poder
encontrar a consangüinidade do
mistério das coisas.” Juliano Garcia Pessanha
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Eu nascera no absurdo de uma família. Nem mesmo sei se é correto usar esse nome: era um agrupado de gentes que insistia por viver, mesmo sob o massacre da própria ignorância e brutalidade. Suas falas, quando estruturadas, eram sempre o exasperante do nervosismo. Deles não fluía nem mesmo uma gota do assombro de aqui estarmos em meio ao abismo. Jamais cogitavam a possibilidade do nunca haver. Viviam no dado, como algo justo e sustentado, sem ao menos desconfiar da precariedade de tudo.
Nesse meio eu era a criatura de estranhamentos: tudo ao redor feria minha pele ainda fina, pois eu não aprendera a encouraçar-me na animosidade que os sustentava. Nossa comunicação fora, desde sempre, fundamentada no equívoco: não havia na língua, pátria que nos aninhasse em comum.
É que eles não compreendiam o chamado que me exigia e interrogavam-se uns aos outros sobre a peculiaridade de tudo o quanto era meu. Jamais lhes ocorrera que eu trazia ainda em mim as marcas da escuridão anterior a qualquer surgimento, e que minha língua era apenas a extensão do cantar das estrelas e do infinito que nos sediava.
Por isso, fiz minha casa nas zonas mais distantes do exílio, para que pouco a pouco eles deixassem de notar minha presença: e foi fácil: eles tinham muitas fomes e empenhavam-se por demais nelas, para darem atenção ao grito escuro que se formava em meus olhos: é que em todos os meus gestos eu só sabia fazer evocar o Grande Mistério que ali nos trouxera, e isso lhes causava o mal-estar do desconforto e do medo...
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