sexta-feira, 1 de outubro de 2010

PREFÁCIOS PARA LIVRO NENHUM

Para Michel Foucault,  Jacques Derrida, Italo Calvino e Carlo Emilio Gadda.




I. ( O Decreto Babilônico )


Nesta noite, enquanto a casa está silenciosa e certo medo percorre os cômodos, escreverei o Livro Final.
Aquele que também é o primeiro, que está na fonte, na origem de todos. O Livro de Liebniz. Escriptografo por Mallarmé. Perseguido pelos Campos. Dissecado por Artaud e Rimbaud.
O Livro do livro do Livro: meta e origem de toda palavra: o FIAT LITTERA das coisas.
E entrarei no livro pela banalidade de uma cena qualquer: uma mulher só, no meio da noite, que escreve, em uma casa onde todos a odeiam.
Em uma cadeira da cozinha, ela está sentada em pleno século XXI.
Enquanto isso, há greves na Europa, crises internacionais, crimes eleitorais na América Latina.
Em algumas ruas mais adiante, jovens rapazes, ao sabor da maconha e do vinho barato, se esfregam uns nos outros, enquanto suas namoradas falam de carros, bolsas e sapatos.
Próximo, vive uma fotógrafa, uma artista, presa na fantasia esgotada do amor. Ela leva continuamente homens e mulheres para sua cama mas jamais esquece a ideia de suicídio.
Nesse Livro há também uma terapeuta ouvindo as duras histórias de um escritor, vítima de maus tratos na infância, mudando e repensando sua vida.
Há o jovem universitário, contaminado por um anseio platônico-problemático por seu antigo professor. Ele, portanto ( e para tanto ), resolve sondar a mente humana: é sobre isso que lê dia após dia...
Não esqueçamos o pai violento, com seus delírios religiosos, sempre tratando como lixo seu filho intelectual. Isso se intensifica - esse ódio intenso - depois do filho haver descoberto seu caso/tara com uma menina de catorze anos, vinte e três anos atrás.
Mas há neste livro uma mãe a surrar violentamente um menino. A cena está congelada no exato momento em que ele tem por volta de quatro anos e ela o pega em plena masturbação : com uma faca apontada para seu rosto, promete cortar-lhe as mãos.
Há também um triste homossexual: ele se embriaga todas as noites, para esquecer que jamais voltará a ser amado como gostaria -  e lê, desesperadamente, os contos de Caio Fernando Abreu, para não morrer...
Personagens que  se encontram  e que encontram, no narrado,  significância e redenção para suas mal digeridas experiências, uma costura para o caos esparso do vivido.
E assim - no Livro - embora esta Babilônia seja um baldio, devastada pelo sarcasmo das hienas e pelo uivo dos coites, seus habitantes procuram viver como podem, apesar de tudo - e aqui o leitor use de discernimento na analogia.


II. ( Possíveis não-razões do Livro )


Esse Livro poderia ser também o livro de uma Catarse. Em que a escrita procura exorcizar seus fantasmas, dando-lhes a materialidade da palavra.
Poderia ser uma fuga. Uma mentira, uma vertigem. Um beijo ao luar depois de muito vinho e desejos reprimidos.
Esse Livro poderia ser uma dor, um engodo, um passatempo..
Tudo depende de que ponto o olhar do leitor pousará sobre ele.
Poderia também ser o fruto de um abandono, de um desamparo. Um grito no escuro de toda solidão. Um modo de se fazer entender.


III. ( Mea Culpa )


Mas tal Livro pode bem ser sobre um homem, que, acostumado a ser infeliz, morre e acorda quando a terra está transformada num paraíso.
Como ele não sabe viver sem ser acusado - e como sua índole não permite que cometa crimes efetivos - ele mesmo começa a se atribuir toda sorte de males e intenções escusas. Só que sua bondade está estampada em seus gestos mais frágeis e ninguém acredita nas histórias por ele contadas ( todos conhecem as boas intenções que o movem).
E ele termina eternamente triste, em um pesado nevoeiro, sentado sobre uma pedra, culpando-se por não ter culpa nenhuma.



IV. ( Doutras Leituras )


E ele fala também de um povo e de um deserto. Só que esse é um povo sem deus, entregue à própria sorte.
Sente-se, no folhear de suas páginas, a secura agreste das almas que caminham sem destino. Almas secas, esturricadas por dentro, rochosas. Em seu riso minguado há o pó das estradas eternas.
Esse Livro também é um exílio.




V. ( Sobre Memórias )


Numa das histórias contadas, no interior difuso do Livro, há dois jovens artistas que se embrenham em uma floresta.
No desejo intenso de estarem juntos sem serem vistos, arrastados por seu instinto - e essa é uma vontade ancestral que pulsa nas veias - eles são levados à beira de um secreto lago: e então, de mão dadas e silenciosos, mergulham inteiros na essência impossível de um entardecer.




VI. ( Por Sobre o Livro )


Porém agora, depois de muitos cigarros e xícaras de café, a escritora reflete melhor sobre o papel da escrita: sua natureza semiótica, suas potencialidades dissêmicas.
E nessa hora o Livro poderia falar do poder barthesiano da Palavra ( uma leitura desviada de João, em seu evangelho, poderia levar a pensar o mesmo ). De que toda palavra fala acerca - nas cercanias- do poder: fala por um poder, na direção de um poder.
Que a palavra - e, por aplicação direta, a escritura - é a "Vontade de Potência" em si. Pois mesmo o Zaratustra de Nietzsche - plagio da Palavra-Logos que se fez carne - fez ouvir sua intenção de potência na palavra, ao nos dizer a fonte, a origem, a passagem; o estranho retorno.
Nesse contexto, a escritora idealiza uma cena: uma Vestal ritualiza diante de um grande espelho de prata, para acessar estranhas visões. Mas apenas consegue divisar, na superfície enganosa do metal, a figura triste e solitária de um homem, que - ela por fim se dá conta - é sua própria imagem.
( A escritura que morde o próprio rabo: figura máxima de um poder ser ).



VII. ( A Grande Ironia )


Se assim o quisesse, mesmo independente de sua escritora ( e de mim, que o leio à medida em que ela escreve ), o Livro falaria - em seus interstícios - sobre o poder místico que as antigas civilizações devotavam à escrita, em seu peso religioso mais fundo.
Nele, a escrita seria abordada como a grande ironia das realizações humanas.
Tremendamente mais frágil que o homem, propensa à destruição pela ação das traças e do tempo, a escritura ganha uma perenidade que zomba da vida: ela resiste à morte de quem a produz, ultrapassa-o.
Nela estão os segredos da morte: o homem, força agente e autônoma, reduz-se a cinzas, enquanto ela atravessa os tempos sempre dizendo e significando cada vez mais.
Sim, esse Livro seria uma grande ironia.

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