quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O Fio de Aryane

...descera lenta, cada degrau. Em seu corpo, tudo recendia ao dia anterior, cujo frescor estabelecera-se intacto. No umbral de seu sorriso, morava a essência dos incensos e dos ritos mais antigos. Trazia, consigo, o pão sovado da infância. Na pele, as vivências intensas e silenciosas com que desvelara o mundo: tudo nela era rota e rumo: o giro dos barcos na agonia de um cais... Havia ventos no modo com que silenciosamente se dirigia às coisas: a leveza de seus passos guiava-nos por estranhos caminhos: ela era luz e chegada, rumor de mundo, ao fim dos ais.
Lembro-me do dia em que a conhecera: seu modo de andar pela casa, de acercar-se de minha relação de amizade com seu irmão; sua maneira discreta de inteirar-se de tudo, sem condenar coisa qualquer. E apaixonei-me por seu modo de certificar-se das coisas: diante dela, eu não era mais um segredo: eu estava aberto para seus olhos de irmã longínqua...Nela, em seu semblante, no calor pálido de seus braços, eu tivera a certeza de que fora, por fim, bem recebido. Seu perfume, no momento cúmplice de nossos abraços, fora, durante algum tempo, o meu secreto abrigo...

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