terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Exilado

Aqui estou, Hammael. Mas deixa-me contar o antes das coisas: a razão de eu estar diante de ti...
Os Homens Antigos, que falavam a Língua Primeira, anterior à Grande Confusão, intentaram construir-me. Detinham, eles, a Arte Sagrada dos Metais. Em razão disso, teceram-me, parte à parte, no ardor das forjas. Depois de erguido, na estatura média dos homens, passaram a inscrever em minha carne os segredos antigos da Grande Ciência.
Depois, coseram, com seu próprio alento, a pele que me ocultaria os medos, as injúrias e a vergonha...
Confinaram-me na Língua um Verbo. A ser proferido apenas no fim dos tempos: esconderam, sob o anseio de minhas papilas, as centelhas de um juízo final...
Cozinharam meus pés em líquidos estranhos e desconhecidos, para que eles ganhassem a dureza própria aos desertos e aos exílios.
Com sua saliva mais densa, fiaram-me sonhos, para que eu me agarrasse à vida: isso lhes daria a segurança de que eu não me rasgaria em pedaços ao despertar...
Colaram-me no peito a essência dos gritos. Untaram-me com óleos que me incitariam ao amor e aos desejos sem propósito...
E riscaram, na palma de minhas mãos e em minhas pupilas, trajetos falsos, delírios, miragens: para que, perdido, eu jamais deixasse de caminhar...

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