terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Espelho de Clarice

Estar diante do espelho : mistério profundo de quem mergulha ávido em si... E estou diante dele como quem se procura entre os objetos cotidianos da casa. Procuro em sua superfície de espanto e água os vestígios de um tempo que já não há. Nele é que se faz o mistério do mundo. Sei que, abaixo de sua pele de cristal e frieza, há os infernos incandescentes de mim...

De todos os objetos da casa, ele é o que me causa as maiores vertigens: seu fascínio de prata e magia arrasta-me pelos corredores até sua presença gélida e silenciosa, para dizer-me: ?...

Sei que ele é sagrado. Sei que ele foi elaborado por  milênios nas entranhas da terra para que o homem fosse condenado a si. Pois o espelho é a meta final de todos nós. Um espelho é um susto na escuridão do quarto...E não sei que força me arrasta para suas águas de tempestade e ilusões: só sei que o quero e ele a mim...

Até mesmo a divindade sentiu-se fascinada pela idéia de ver-se...E é por isso que aqui estamos, para que a divindade, em sua Verdade absoluta, possa ver-se refletida por todos os séculos dos séculos. Pois a divindade só sabe amar o que lhe é espelho: e espelho translúcido. Esse foi o maior pecado de Lúcifer: crer que Deus fosse o espelho de si, que fosse ele a fonte da eterna beleza ali refletida...E ver-se no espelho foi um grito de angústia em seus desertos mais profundos...

Mas sei que o espelho é a grande blasfêmia que reside entre nós. Ele - segundo contam os povos antigos, anteriores à escrita e aos enganos da linguagem - surgiu entre nós para que víssemos a ferocidade dos tempos, em sua fome de animal insaciável, a corroer-nos, a desagregar-nos os sonhos mais antigos, a devorar a alegria e luminosidade de nossos olhos de outrora...

Todo espelho é herético: enreda-nos em seus labirintos de aparências e seduções para que durmamos o sono tranquilo dos condenados. Para que nos esqueçamos que a morte nos espreita pelos cantos, embora ele mesmo nos indicie sua proximidade inexorável e letal. O espelho é um dos engodos da morte...

E é em sua superfície de malignidade e encantos que me deixo conduzir, que me deixo levar para uma outra margem, onde meus gestos se cristalizam, onde sou lançado para a realidade bruta de estar, indigentemente, diante e distante de mim...

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