terça-feira, 5 de outubro de 2010

Come un percorso che si biforca












A Estrela:



Não, Pedro, não mais as esperas. As agonias surdas ao lado dos telefones pela madrugada. Não mais o jantar requentado no fogo brando da solidão e de tuas desculpas. Sinto-me uma forasteira em minha minha própria vida: alguém que não mais se reconhece aos espelhos.
De tudo, Pedro, ficou-me o medo de sussurrar teu nome entre as gentes. De ter dado a perceber qualquer rastro de ti. De dizer teu nome mesmo no entressonho da noite.
É que sou a sombra: uma duplicata opaca de tua covardia. 
Tornei-me algo impronunciável em tuas conversas, um crime, um cadáver em um secreto baú...
Mas não te preocupes: Lídia cuidará para que morras devagar e satisfeito entre os teus... Sim, ela tem essa destreza em fazer tudo e todos acreditarem que a vida satisfaz. Quem sabe tu mesmo fiques satisfeito? quem sabe a tua escuridão não se apague com o convívio ameno que Lídia te dará? Pois comigo não estarias satisfeito: só te posso oferecer angustia e lapso, e isso já tens de sobra...





A Rocha

Tu não percebes, Estella, mas o tempo tem me enlouquecido. Sinto-me algemado a essa transitoriedade em cada detalhe de meus dias. E o relógio de pulso, adornado de jóias e futilidades, tem sido o incansável carcereiro. Ele, com seu olho frio e sem misericórdia, assiste ao declinar contínuo de meus ideais. Não poderia haver uma morte mais dolorosa que essa: olhar-se continuamente ao espelho e ver-se desagregado de si. Todas a minhas metas foram suspensas: vivo na corrente das horas como quem é arrastado por águas anteriores e imponderáveis. Se há um deus, ele esqueceu-se de mim. Seu prazer talvez seja ver-me rumar ao Nada como se eu fora um doente terminal que sovinamente se apega a cada instante vivido. Recusa-me ELE, em sua ardência de castigos, qualquer permanência que me torne pleno o existir. E me arrasto entre as gentes como quem dorme na escuridão de uma cegueira, como um morto sem nome ou passado...Apenas Lídia resplandece no quarto escuro que trago dentro e que continuamente procuro ocultar de todos... É que trago na alma o semblante dos desertos e a fala opaca dos que nasceram condenados ao degredo: há em mim um outro verbo a engendrar-me os dias...


O Labor:

Pedro, quando é que te darás conta de que meu sorriso é a beira de um precipício? Não percebes que ao fiar estas vestes - eu que estou desde sempre condenada a esta roca - o que procuro é entretecer um fundamento para os meus dias? Ou pensas que sou constituida apenas de superficialidades e aparências? É que este é o meu quinhão: sigo como um simulacro de mim, entre sorrisos e gestos simulados, para que não afundemos no lodoso de nós. Pois sei que há em ti uma água pantanosa e nociva, e temo infectar-me de suas extremas densidades... É que fui obrigada pelos tempos a parecer-te luminosa e intensa de claridades. Fui obrigada a tornar-me o fundamento impossível de nossas vidas: pois do contrário eu devoraria teus filhos com os olhos repletos de uma loucura mais antiga que o tempo. E nessa hora em que a loucura insiste em surgir em minha trama, um vento outro, mais profundo e obscurecido, percorre os corredores úmidos de nossa casa de sonhos e modos estudados. Há um câncer a minar-nos as forças remotas com que interpretávamos nossa tão medida felicidade: meu coração está exilado em uma torre perdida no fundo impossível de algum abismo.
Mas exiges,com teus modos soturnos, que eu seja toda esplendência e prata. Exiges de mim uma luz contínua para todas as tuas horas: e como eu desejaria fazer ver minha face de medo e horror! Como eu desejaria desnudar-me de minhas carnes e mostrar-te o avesso de nossas vidas mal tecidas. Como eu desejaria mergulhar absurda nesse silêncio atroz que nos envolve e romper essa ausência que te cerca e consome...
Mas vem, amor, e bebe de mim, pois é nessa hora que somos profundos, dolorosamente lúcidos...e sagrados... E que rumamos para o fundo sem fundo dessa outra margem que se constrói em ti e em mim...

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