quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Não-História

Tenho de escrever uma história. Farei assim: deixarei as palavras traçarem um percurso e então seguirei: quem sabe seja mais fácil?
Estou cansada dos meus lirismos. Escrevi dezenas de cartas e fragmentos de amor para alguém que jamais houve. Mas agora quero o impossível: quero escrever o Nada!
E pensas que é fácil? Estou há séculos elaborando em mim essa história sobre coisa nenhuma: sinto que fui escolhida para isso.
Agora preciso de ar: preciso ter os pulmões plenos para esse grito que estou construindo no escuro da noite. Mas antes vou fumar: são necessários entorpecimentos e nicotinas para prosseguir nessa via crucis – não sou perfeita: que ninguém nunca me cobre semelhante heresia...
Algumas vezes sinto que vou agarrar essa história pelos pés: mas ela tem passos ágeis e silenciosos e sempre acaba me escapando. É que talvez tudo seja difícil assim como estou: na penumbra de uma vida. Justo eu que vivi o mistério e não fui fulminada no nascimento da pergunta – eu que perguntei a arquitetura fria e fugidia de um ovo ( todo ovo é toccata e fuga ). Mas uma coisa não me roubam: o olhar de sagrado que reservei às baratas!
Talvez alguém se lembre disso. Não importa: lembrar é uma das falhas da memória. Sua função primeira é guardar: a lembrança é sempre aquilo que escapou de suas garras.
Mas deixa eu te contar: ontem, na superfície cristalina de um lago que jamais conheci, vi a imagem de um mítico cavalo e não sei que coisa é essa que me deram.
É essa coisa que não conheço que eu deveria contar? Será essa minha dolorosa missão? Não sei: não estou preparada para viver o sagrado do Desconhecido em palavras: talvez eu não seja digna desse mistério: eu que soube silenciar...
Mas talvez eu esteja te contando uma história. Talvez, nas entrelinhas dessa coisa que não digo – dessa história que não frutifica, que não deixa amadurecer seu pomo rubro e suculento (e há nisto o milagre oriental das romãs e seus desejos secretos) – talvez eu já esteja te contando o drama dessa não-história que não vinga, que não deixa entrever seu sutil desabrochar. É que estou tateando o dizer desse algo cintilante e pontiagudo que não diz: mas que apenas me martiriza...

Nenhum comentário:

Postar um comentário