quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Da Felicidade





A casa estava abarrotada de velhos e crianças sem sentido. Talvez, no fundo de algum copo, estivessem os dias perdidos, um paliativo para o tédio de tudo.
As janelas ardiam: era uma tarde nos trópicos...
A curiosidade tola das crianças revirava as anáguas das senhoras. Para tudo havia um riso pronto: certa alegria empalhada, que recendia à natureza morta.
Tudo exalava cansaço e exasperação. Mesmo os adolescentes - na pureza depravada de seus anos - erravam cegos de quarto em quarto: o calor os fustigava.
E havia, em torno da mesa, certa expectativa: todos comiam resignados, como se um Deus pairasse sobre tudo, em fulgor e solenidade. Havia certa agitação, no cômodo ao lado, mas seus gritos e risos soavam como um rumor distante, vindos de um tempo sem nome.
A dona da casa se agitava em sorrisos e meneios, imbuída da responsabilidade de tornar todos satisfeitos. O marido, austero e cerimonioso, sorria com o olhar de aprovação: a fome tornava todos iguais, na ânsia das coisas. Além dela, apenas a democracia das mortes.
A filha mais moça não comia: olhava para tudo e todos como se estivesse em vias de uma descoberta: tudo soava à tensão de um irromper, suas veias pulsavam pelo efeito dos vinhos. Ela era uma solitária.
Nos Jardins da casa, as empregadas riam ruidosamente e sem pudor. Tudo estava impregnado daquela euforia sôfrega. E eles aguardavam - como que com dores de parto - a aprovação alheia: estar diante do outro era a razão do evento.
Mas foi como de súbito, e, sem avisos,que todos começaram a ser tomados pelo tédio. As crianças transpiravam em cascatas sua irritação. As criadas olhavam desconfiadas para todos, como quem esconde um crime. Os convivas sofriam de olhos baixos...
Então, todos começaram a retirar-se.
Os rumores não mais se ouviam, apenas um estilhaço de riso ou conversa amena. Tudo foi silenciando, no declínio da tarde, como se fosse necessário hibernar após tão lauta refeição.
Eles haviam comungado com a satisfação das coisas e agora só lhes restava dormir. É que a felicidade era agora uma chaga: e precisaria ser extirpada com longas e pesadas horas de sono...
sono...

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