quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Isto é meu Corpo









Ela andava escura nos últimos dias. Ninguém mais ouvia seus risos... Estava a enovelar-se para dentro: estranha crisálida a envolver-se nas tramas de si: surgiria por fim o espanto? O irromper de fascínio diante de tudo? Não se poderia afirmar.
Não era por primeira vez que vivia desses momentos: tempo de atar as tramas soltas do tempo, de clamar aos ventos, com o olhar absorto, acerca de coisas não ditas: era um tempo de atavismos esse em que ela singrava por outros mares: se houvera rochedos, seu silêncio os ocultava na devida medida.
Sentia-se livre e tola como as coisas que florescem ao acaso dos dias: era com certo cuidado que ela sorvia lentamente, a cada respiração, o hálito fresco do ar. Podia-se dizer dela que vivia na iminência de uma grande sutileza, e que uma profunda descoberta logo a assaltaria. E rumava, lentamente, para águas mais e mais profundas...
E era lento seu rumar. Ela havia esboçado, desde sempre, uma natureza propícia ao desagregar constante e contínuo. O modo precário com que se erguera diante dos eventos do mundo indiciava seu destino: o rumo sem fim, na esguia natureza das águas.
Mas nem sempre fora assim: houve um tempo de concretude e certezas. Um tempo de lavouras e colheitas reais, na gratidão mediterrânea de suas mãos: tudo recendia ao lavrar de terras incultas: época adequada para o plantio de suas próprias sementes.
Não que ela ousasse se acreditar, um dia, concluída: ela conhecia sua natureza de rio sem tréguas, soubera desde a infância antiga que jamais houvera um porto para a natureza inconstante dos seus. É que elegera para si, como ponto de chegada e estranha finalidade, o fazer bruto das coisas. Via-se como fruto a maturar-se no ninho do tempo: seu mel seria colhido pelas mãos ideais de um futuro.
E havia - nesse tempo de assar os pães, de colher a água íntima do tempo, na atividade soturna das cisternas - o lampejo de uma família...
Havia a presença quase esboçada de um marido, sempre atento à mesmice dos afazeres, e a exasperação alegre de crianças que anunciavam as chuvas outonais. Havia a crença no amor e na perpetuidade das coisas, mesmo que distantes e esmaecidas.
E ela consagrava-se ao sovar dos pães, como quem prepara o próprio corpo para um sacrifício outro: algo tão sagrado que ainda não fora aprisionado em um nome: é que havia algo de santidade e devotamento no contato das coisas da terra - na aspereza do trigo, nas castidades do leite - com suas mãos. Ao moldar os pães, era seu corpo que se acariciava diante da exuberância agrícola do mundo. A fome do Outro era sua razão e seu propósito...
Mas agora, que estava imersa na turbidez das águas, ferida por sua violência, ela procurava agarrar-se às coisas como quem se atém ao estilhaço de uma vida: um passo em falso e tudo ruiria. Seria tragada, sem ao menos provar as dádivas de uma misericórdia.
E ao decantar as terras, para o vindouro dos frutos, indagava: “qual será por fim meu rosto, quando eu, solene, me deparar com o outro lado do Abismo?”...

Nenhum comentário:

Postar um comentário