domingo, 30 de outubro de 2011

Ensaio Sobre o Choro

Eu estou sentado a poucos metros dela. E consigo vê-la claramente: suas roupas bem ajustadas ao clima e ao tom da própria pele. As costas firmes com que carrega a mochila.
Ela ainda é jovem. Talvez nisso esteja contida toda a beleza de sua figura: ela é jovem e chora!
Não me pergunto das razões do choro, que poderiam ser de todo banais. Não de uma banalidade imposta, mas de uma banalidade própria à sua juventude: talvez um namorado, uma amiga, um castigo mais severo dos pais...
Não olho para o choro e suas razões, olho para o choro em si mesmo. Nesse eclodir de fluídos e sons incontroláveis que a desfiguram. Nesse desabrochar abrupto de espasmos pelo corpo na solidão de seus poucos anos.
Olho-a, enquanto ela chora, assim como uma esfinge olha para outra, a tramar seus augúrios e enigmas.

Tenho de te fazer ver isso que essa noite me veio - preciso te contar.
E como farei se essas palavras são esguias e me escapam? Se nenhum som traduz o meu modo de percorrer estes cômodos; de estar entre estes móveis?
Nessa noite sinto-me toda luar e ondas fortes batendo num cais. Serei eu também composta da matéria vaporosa dessa intermitência?
Guardarei dentro de mim algo rochoso como madeira petrificada? - é além da seiva que eu estou!...
E nesse agora sinto-me impelida a te segurar mansamente, a conduzir teus passos para o interiror dessa coisa que quero dizer, que quer dizer-me.
Vem, estabelece comigo um pacto sem tempo e toma disso que tenho escondido nos frascos de minhas palavras.
Percebe esse meu outro dizer... Compreende esse meu modo todo único de estar ao luar...
Mas não é ; ainda não é!
É que estou no lado avesso das coisas te cantando uma ópera antiga em códigos secretos. Estou percutindo sons que jamais conheci para tornar tangível algo que apenas se entrevê.
É que estou toda aguda, rítmica e sonora tentando te contar isso: o meu residir marginal entre as coisas do mundo...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

As Três Coisas

        Há, na casa, três objetos que me causam demasiada estranheza: o televisor, o telefone e o relógio.
        Talvez isso me aconteça pelo modo incongruente com que eles se relacionam na semântica ilógica dos lares.
        É inaceitável concebê-los intimamente ligados ao torvelinho de fatos que se desenrola no interior de nossas vidas.
        O primeiro nos apresenta o descontínuo, o fragmentário, tal a chuvarada de imagens do inconsciente: o evoluir de seus espetáculos leva-nos à vertigem qual um aleph borgeano. Enreda-nos em seu profetizar e projetar de sombras a um além tempo, à margem terceira das coisas.
        O segundo traz-nos o espanto branco da estridência; seus metálicos e histéricos gritos lançam-nos ao imediato, à urgência de um recado, de um afeto, de um luto...
         Já o relógio, mais atento dos três, observa-nos, apenas, em nosso caminhar para morte, com seu cínico tic-tac.
     
     

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Os dedos de minhas palavras não conseguem tocar a realidade. Por mais que eu me permita a aproximação, sempre torno a escorregar naquele não-lugar entre mim e as coisas ao redor.
É este o meu ofício: lapidar esse espaço pétreo, essa lacuna em rocha que separa minha língua dos objetos sobre os quais orbito meu espanto.É que por mais que minhas papilas e pele se esfreguem na superfície dos corpos dados (quer naturais, quer artificiais) tudo será sempre virtualidade: a impressão sensualizada de uma interna e eterna incerteza.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Complexo de Ulisses

 


Curiosamente, nesses últimos dias, voltei a lidar com pintura...
O exercício da pintura em tela, para mim, de um modo que ainda não é de todo claro, está ligado à natureza dos surtos psicóticos.
Há, no fazer dessa arte, algo que mobiliza estranhos sentimentos. Como se, na tentativa de trazer algo à tona – à superfície da tela – a psique principiasse por desestabilizar-se..
É que talvez, longe da escrita, toda e qualquer outra expressão artística produza a loucura, pois nela não há o anteparo da letra a nos ocultar, a nos proteger. Sem a letra, tudo ruma ao caos, à aniquilação.
Temo um mundo sem palavras: há uma estranha sufocação contida nessa imagem!
Elas, as palavras, são como as correntes de Ulisses: impedem que seja ele arrastado pelos (en)cantos do imponderável. Às suas águas de potência e aniquilamento.
A palavra, em mim, funda o lugar-ser de meu Ulisses-Ego, amarra-o à realidade das formas, às representações. São elas que permitem a esse Ulisses íntimo seu regresso à "Ítaca". Lá onde ele comunga consigo, onde é igual a si mesmo...

(Carlos Soares. Escritos Adversos, Ed. Nova Ocultação )

Donana

Ao esgueirar-se, ela canta para a mornidão branca de sua cegueira.
Seu modo de lamber-se no estático ( novelo interior ) desse silêncio, de certo constrangem. Mas falam, a seu modo, de íntimos sabores e senhas que não nos ocorrem.
Ela é toda brenha, segredo e enigmas...
Compreendo-a na solidariedade de quem também fixou-se em regiões além dos mapas.
Vez por outra, como um equívoco, ela vem à superfície de suas águas de ecos, cacos e fonias para dizer a luz rude que recobre as coisas: a sordidez de meu pai, minha aspereza muda: o maldito caos que nos enlaça, miúdo e soturno...