O homem, força agente e autônoma, reduz-se a cinzas, enquanto ela - a palavra - atravessa os tempos sempre dizendo e significando cada vez mais.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
O Espelho de Clarice
Estar diante do espelho : mistério profundo de quem mergulha ávido em si... E estou diante dele como quem se procura entre os objetos cotidianos da casa. Procuro em sua superfície de espanto e água os vestígios de um tempo que já não há. Nele é que se faz o mistério do mundo. Sei que, abaixo de sua pele de cristal e frieza, há os infernos incandescentes de mim...
De todos os objetos da casa, ele é o que me causa as maiores vertigens: seu fascínio de prata e magia arrasta-me pelos corredores até sua presença gélida e silenciosa, para dizer-me: ?...
Sei que ele é sagrado. Sei que ele foi elaborado por milênios nas entranhas da terra para que o homem fosse condenado a si. Pois o espelho é a meta final de todos nós. Um espelho é um susto na escuridão do quarto...E não sei que força me arrasta para suas águas de tempestade e ilusões: só sei que o quero e ele a mim...
Até mesmo a divindade sentiu-se fascinada pela idéia de ver-se...E é por isso que aqui estamos, para que a divindade, em sua Verdade absoluta, possa ver-se refletida por todos os séculos dos séculos. Pois a divindade só sabe amar o que lhe é espelho: e espelho translúcido. Esse foi o maior pecado de Lúcifer: crer que Deus fosse o espelho de si, que fosse ele a fonte da eterna beleza ali refletida...E ver-se no espelho foi um grito de angústia em seus desertos mais profundos...
Mas sei que o espelho é a grande blasfêmia que reside entre nós. Ele - segundo contam os povos antigos, anteriores à escrita e aos enganos da linguagem - surgiu entre nós para que víssemos a ferocidade dos tempos, em sua fome de animal insaciável, a corroer-nos, a desagregar-nos os sonhos mais antigos, a devorar a alegria e luminosidade de nossos olhos de outrora...
Todo espelho é herético: enreda-nos em seus labirintos de aparências e seduções para que durmamos o sono tranquilo dos condenados. Para que nos esqueçamos que a morte nos espreita pelos cantos, embora ele mesmo nos indicie sua proximidade inexorável e letal. O espelho é um dos engodos da morte...
E é em sua superfície de malignidade e encantos que me deixo conduzir, que me deixo levar para uma outra margem, onde meus gestos se cristalizam, onde sou lançado para a realidade bruta de estar, indigentemente, diante e distante de mim...
Come un percorso che si biforca
A Estrela:
Não, Pedro, não mais as esperas. As agonias surdas ao lado dos telefones pela madrugada. Não mais o jantar requentado no fogo brando da solidão e de tuas desculpas. Sinto-me uma forasteira em minha minha própria vida: alguém que não mais se reconhece aos espelhos.
De tudo, Pedro, ficou-me o medo de sussurrar teu nome entre as gentes. De ter dado a perceber qualquer rastro de ti. De dizer teu nome mesmo no entressonho da noite.
É que sou a sombra: uma duplicata opaca de tua covardia.
Tornei-me algo impronunciável em tuas conversas, um crime, um cadáver em um secreto baú...
Mas não te preocupes: Lídia cuidará para que morras devagar e satisfeito entre os teus... Sim, ela tem essa destreza em fazer tudo e todos acreditarem que a vida satisfaz. Quem sabe tu mesmo fiques satisfeito? quem sabe a tua escuridão não se apague com o convívio ameno que Lídia te dará? Pois comigo não estarias satisfeito: só te posso oferecer angustia e lapso, e isso já tens de sobra...
A Rocha
Tu não percebes, Estella, mas o tempo tem me enlouquecido. Sinto-me algemado a essa transitoriedade em cada detalhe de meus dias. E o relógio de pulso, adornado de jóias e futilidades, tem sido o incansável carcereiro. Ele, com seu olho frio e sem misericórdia, assiste ao declinar contínuo de meus ideais. Não poderia haver uma morte mais dolorosa que essa: olhar-se continuamente ao espelho e ver-se desagregado de si. Todas a minhas metas foram suspensas: vivo na corrente das horas como quem é arrastado por águas anteriores e imponderáveis. Se há um deus, ele esqueceu-se de mim. Seu prazer talvez seja ver-me rumar ao Nada como se eu fora um doente terminal que sovinamente se apega a cada instante vivido. Recusa-me ELE, em sua ardência de castigos, qualquer permanência que me torne pleno o existir. E me arrasto entre as gentes como quem dorme na escuridão de uma cegueira, como um morto sem nome ou passado...Apenas Lídia resplandece no quarto escuro que trago dentro e que continuamente procuro ocultar de todos... É que trago na alma o semblante dos desertos e a fala opaca dos que nasceram condenados ao degredo: há em mim um outro verbo a engendrar-me os dias...
O Labor:
Pedro, quando é que te darás conta de que meu sorriso é a beira de um precipício? Não percebes que ao fiar estas vestes - eu que estou desde sempre condenada a esta roca - o que procuro é entretecer um fundamento para os meus dias? Ou pensas que sou constituida apenas de superficialidades e aparências? É que este é o meu quinhão: sigo como um simulacro de mim, entre sorrisos e gestos simulados, para que não afundemos no lodoso de nós. Pois sei que há em ti uma água pantanosa e nociva, e temo infectar-me de suas extremas densidades... É que fui obrigada pelos tempos a parecer-te luminosa e intensa de claridades. Fui obrigada a tornar-me o fundamento impossível de nossas vidas: pois do contrário eu devoraria teus filhos com os olhos repletos de uma loucura mais antiga que o tempo. E nessa hora em que a loucura insiste em surgir em minha trama, um vento outro, mais profundo e obscurecido, percorre os corredores úmidos de nossa casa de sonhos e modos estudados. Há um câncer a minar-nos as forças remotas com que interpretávamos nossa tão medida felicidade: meu coração está exilado em uma torre perdida no fundo impossível de algum abismo.
Mas exiges,com teus modos soturnos, que eu seja toda esplendência e prata. Exiges de mim uma luz contínua para todas as tuas horas: e como eu desejaria fazer ver minha face de medo e horror! Como eu desejaria desnudar-me de minhas carnes e mostrar-te o avesso de nossas vidas mal tecidas. Como eu desejaria mergulhar absurda nesse silêncio atroz que nos envolve e romper essa ausência que te cerca e consome...
Mas vem, amor, e bebe de mim, pois é nessa hora que somos profundos, dolorosamente lúcidos...e sagrados... E que rumamos para o fundo sem fundo dessa outra margem que se constrói em ti e em mim...
O Exilado
Aqui estou, Hammael. Mas deixa-me contar o antes das coisas: a razão de eu estar diante de ti...
Os Homens Antigos, que falavam a Língua Primeira, anterior à Grande Confusão, intentaram construir-me. Detinham, eles, a Arte Sagrada dos Metais. Em razão disso, teceram-me, parte à parte, no ardor das forjas. Depois de erguido, na estatura média dos homens, passaram a inscrever em minha carne os segredos antigos da Grande Ciência.
Depois, coseram, com seu próprio alento, a pele que me ocultaria os medos, as injúrias e a vergonha...
Confinaram-me na Língua um Verbo. A ser proferido apenas no fim dos tempos: esconderam, sob o anseio de minhas papilas, as centelhas de um juízo final...
Cozinharam meus pés em líquidos estranhos e desconhecidos, para que eles ganhassem a dureza própria aos desertos e aos exílios.
Com sua saliva mais densa, fiaram-me sonhos, para que eu me agarrasse à vida: isso lhes daria a segurança de que eu não me rasgaria em pedaços ao despertar...
Colaram-me no peito a essência dos gritos. Untaram-me com óleos que me incitariam ao amor e aos desejos sem propósito...
E riscaram, na palma de minhas mãos e em minhas pupilas, trajetos falsos, delírios, miragens: para que, perdido, eu jamais deixasse de caminhar...
Os Homens Antigos, que falavam a Língua Primeira, anterior à Grande Confusão, intentaram construir-me. Detinham, eles, a Arte Sagrada dos Metais. Em razão disso, teceram-me, parte à parte, no ardor das forjas. Depois de erguido, na estatura média dos homens, passaram a inscrever em minha carne os segredos antigos da Grande Ciência.
Depois, coseram, com seu próprio alento, a pele que me ocultaria os medos, as injúrias e a vergonha...
Confinaram-me na Língua um Verbo. A ser proferido apenas no fim dos tempos: esconderam, sob o anseio de minhas papilas, as centelhas de um juízo final...
Cozinharam meus pés em líquidos estranhos e desconhecidos, para que eles ganhassem a dureza própria aos desertos e aos exílios.
Com sua saliva mais densa, fiaram-me sonhos, para que eu me agarrasse à vida: isso lhes daria a segurança de que eu não me rasgaria em pedaços ao despertar...
Colaram-me no peito a essência dos gritos. Untaram-me com óleos que me incitariam ao amor e aos desejos sem propósito...
E riscaram, na palma de minhas mãos e em minhas pupilas, trajetos falsos, delírios, miragens: para que, perdido, eu jamais deixasse de caminhar...
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
PREFÁCIOS PARA LIVRO NENHUM
Para Michel Foucault, Jacques Derrida, Italo Calvino e Carlo Emilio Gadda.
I. ( O Decreto Babilônico )
Nesta noite, enquanto a casa está silenciosa e certo medo percorre os cômodos, escreverei o Livro Final.
Aquele que também é o primeiro, que está na fonte, na origem de todos. O Livro de Liebniz. Escriptografo por Mallarmé. Perseguido pelos Campos. Dissecado por Artaud e Rimbaud.
O Livro do livro do Livro: meta e origem de toda palavra: o FIAT LITTERA das coisas.
E entrarei no livro pela banalidade de uma cena qualquer: uma mulher só, no meio da noite, que escreve, em uma casa onde todos a odeiam.
Em uma cadeira da cozinha, ela está sentada em pleno século XXI.
Enquanto isso, há greves na Europa, crises internacionais, crimes eleitorais na América Latina.
Em algumas ruas mais adiante, jovens rapazes, ao sabor da maconha e do vinho barato, se esfregam uns nos outros, enquanto suas namoradas falam de carros, bolsas e sapatos.
Próximo, vive uma fotógrafa, uma artista, presa na fantasia esgotada do amor. Ela leva continuamente homens e mulheres para sua cama mas jamais esquece a ideia de suicídio.
Nesse Livro há também uma terapeuta ouvindo as duras histórias de um escritor, vítima de maus tratos na infância, mudando e repensando sua vida.
Há o jovem universitário, contaminado por um anseio platônico-problemático por seu antigo professor. Ele, portanto ( e para tanto ), resolve sondar a mente humana: é sobre isso que lê dia após dia...
Não esqueçamos o pai violento, com seus delírios religiosos, sempre tratando como lixo seu filho intelectual. Isso se intensifica - esse ódio intenso - depois do filho haver descoberto seu caso/tara com uma menina de catorze anos, vinte e três anos atrás.
Mas há neste livro uma mãe a surrar violentamente um menino. A cena está congelada no exato momento em que ele tem por volta de quatro anos e ela o pega em plena masturbação : com uma faca apontada para seu rosto, promete cortar-lhe as mãos.
Há também um triste homossexual: ele se embriaga todas as noites, para esquecer que jamais voltará a ser amado como gostaria - e lê, desesperadamente, os contos de Caio Fernando Abreu, para não morrer...
Personagens que se encontram e que encontram, no narrado, significância e redenção para suas mal digeridas experiências, uma costura para o caos esparso do vivido.
E assim - no Livro - embora esta Babilônia seja um baldio, devastada pelo sarcasmo das hienas e pelo uivo dos coites, seus habitantes procuram viver como podem, apesar de tudo - e aqui o leitor use de discernimento na analogia.
II. ( Possíveis não-razões do Livro )
Esse Livro poderia ser também o livro de uma Catarse. Em que a escrita procura exorcizar seus fantasmas, dando-lhes a materialidade da palavra.
Poderia ser uma fuga. Uma mentira, uma vertigem. Um beijo ao luar depois de muito vinho e desejos reprimidos.
Esse Livro poderia ser uma dor, um engodo, um passatempo..
Tudo depende de que ponto o olhar do leitor pousará sobre ele.
Poderia também ser o fruto de um abandono, de um desamparo. Um grito no escuro de toda solidão. Um modo de se fazer entender.
III. ( Mea Culpa )
Mas tal Livro pode bem ser sobre um homem, que, acostumado a ser infeliz, morre e acorda quando a terra está transformada num paraíso.
Como ele não sabe viver sem ser acusado - e como sua índole não permite que cometa crimes efetivos - ele mesmo começa a se atribuir toda sorte de males e intenções escusas. Só que sua bondade está estampada em seus gestos mais frágeis e ninguém acredita nas histórias por ele contadas ( todos conhecem as boas intenções que o movem).
E ele termina eternamente triste, em um pesado nevoeiro, sentado sobre uma pedra, culpando-se por não ter culpa nenhuma.
IV. ( Doutras Leituras )
E ele fala também de um povo e de um deserto. Só que esse é um povo sem deus, entregue à própria sorte.
Sente-se, no folhear de suas páginas, a secura agreste das almas que caminham sem destino. Almas secas, esturricadas por dentro, rochosas. Em seu riso minguado há o pó das estradas eternas.
Esse Livro também é um exílio.
V. ( Sobre Memórias )
Numa das histórias contadas, no interior difuso do Livro, há dois jovens artistas que se embrenham em uma floresta.
No desejo intenso de estarem juntos sem serem vistos, arrastados por seu instinto - e essa é uma vontade ancestral que pulsa nas veias - eles são levados à beira de um secreto lago: e então, de mão dadas e silenciosos, mergulham inteiros na essência impossível de um entardecer.
VI. ( Por Sobre o Livro )
Porém agora, depois de muitos cigarros e xícaras de café, a escritora reflete melhor sobre o papel da escrita: sua natureza semiótica, suas potencialidades dissêmicas.
E nessa hora o Livro poderia falar do poder barthesiano da Palavra ( uma leitura desviada de João, em seu evangelho, poderia levar a pensar o mesmo ). De que toda palavra fala acerca - nas cercanias- do poder: fala por um poder, na direção de um poder.
Que a palavra - e, por aplicação direta, a escritura - é a "Vontade de Potência" em si. Pois mesmo o Zaratustra de Nietzsche - plagio da Palavra-Logos que se fez carne - fez ouvir sua intenção de potência na palavra, ao nos dizer a fonte, a origem, a passagem; o estranho retorno.
Nesse contexto, a escritora idealiza uma cena: uma Vestal ritualiza diante de um grande espelho de prata, para acessar estranhas visões. Mas apenas consegue divisar, na superfície enganosa do metal, a figura triste e solitária de um homem, que - ela por fim se dá conta - é sua própria imagem.
( A escritura que morde o próprio rabo: figura máxima de um poder ser ).
VII. ( A Grande Ironia )
Se assim o quisesse, mesmo independente de sua escritora ( e de mim, que o leio à medida em que ela escreve ), o Livro falaria - em seus interstícios - sobre o poder místico que as antigas civilizações devotavam à escrita, em seu peso religioso mais fundo.
Nele, a escrita seria abordada como a grande ironia das realizações humanas.
Tremendamente mais frágil que o homem, propensa à destruição pela ação das traças e do tempo, a escritura ganha uma perenidade que zomba da vida: ela resiste à morte de quem a produz, ultrapassa-o.
Nela estão os segredos da morte: o homem, força agente e autônoma, reduz-se a cinzas, enquanto ela atravessa os tempos sempre dizendo e significando cada vez mais.
Sim, esse Livro seria uma grande ironia.
I. ( O Decreto Babilônico )
Nesta noite, enquanto a casa está silenciosa e certo medo percorre os cômodos, escreverei o Livro Final.
Aquele que também é o primeiro, que está na fonte, na origem de todos. O Livro de Liebniz. Escriptografo por Mallarmé. Perseguido pelos Campos. Dissecado por Artaud e Rimbaud.
O Livro do livro do Livro: meta e origem de toda palavra: o FIAT LITTERA das coisas.
E entrarei no livro pela banalidade de uma cena qualquer: uma mulher só, no meio da noite, que escreve, em uma casa onde todos a odeiam.
Em uma cadeira da cozinha, ela está sentada em pleno século XXI.
Enquanto isso, há greves na Europa, crises internacionais, crimes eleitorais na América Latina.
Em algumas ruas mais adiante, jovens rapazes, ao sabor da maconha e do vinho barato, se esfregam uns nos outros, enquanto suas namoradas falam de carros, bolsas e sapatos.
Próximo, vive uma fotógrafa, uma artista, presa na fantasia esgotada do amor. Ela leva continuamente homens e mulheres para sua cama mas jamais esquece a ideia de suicídio.
Nesse Livro há também uma terapeuta ouvindo as duras histórias de um escritor, vítima de maus tratos na infância, mudando e repensando sua vida.
Há o jovem universitário, contaminado por um anseio platônico-problemático por seu antigo professor. Ele, portanto ( e para tanto ), resolve sondar a mente humana: é sobre isso que lê dia após dia...
Não esqueçamos o pai violento, com seus delírios religiosos, sempre tratando como lixo seu filho intelectual. Isso se intensifica - esse ódio intenso - depois do filho haver descoberto seu caso/tara com uma menina de catorze anos, vinte e três anos atrás.
Mas há neste livro uma mãe a surrar violentamente um menino. A cena está congelada no exato momento em que ele tem por volta de quatro anos e ela o pega em plena masturbação : com uma faca apontada para seu rosto, promete cortar-lhe as mãos.
Há também um triste homossexual: ele se embriaga todas as noites, para esquecer que jamais voltará a ser amado como gostaria - e lê, desesperadamente, os contos de Caio Fernando Abreu, para não morrer...
Personagens que se encontram e que encontram, no narrado, significância e redenção para suas mal digeridas experiências, uma costura para o caos esparso do vivido.
E assim - no Livro - embora esta Babilônia seja um baldio, devastada pelo sarcasmo das hienas e pelo uivo dos coites, seus habitantes procuram viver como podem, apesar de tudo - e aqui o leitor use de discernimento na analogia.
II. ( Possíveis não-razões do Livro )
Esse Livro poderia ser também o livro de uma Catarse. Em que a escrita procura exorcizar seus fantasmas, dando-lhes a materialidade da palavra.
Poderia ser uma fuga. Uma mentira, uma vertigem. Um beijo ao luar depois de muito vinho e desejos reprimidos.
Esse Livro poderia ser uma dor, um engodo, um passatempo..
Tudo depende de que ponto o olhar do leitor pousará sobre ele.
Poderia também ser o fruto de um abandono, de um desamparo. Um grito no escuro de toda solidão. Um modo de se fazer entender.
III. ( Mea Culpa )
Mas tal Livro pode bem ser sobre um homem, que, acostumado a ser infeliz, morre e acorda quando a terra está transformada num paraíso.
Como ele não sabe viver sem ser acusado - e como sua índole não permite que cometa crimes efetivos - ele mesmo começa a se atribuir toda sorte de males e intenções escusas. Só que sua bondade está estampada em seus gestos mais frágeis e ninguém acredita nas histórias por ele contadas ( todos conhecem as boas intenções que o movem).
E ele termina eternamente triste, em um pesado nevoeiro, sentado sobre uma pedra, culpando-se por não ter culpa nenhuma.
IV. ( Doutras Leituras )
E ele fala também de um povo e de um deserto. Só que esse é um povo sem deus, entregue à própria sorte.
Sente-se, no folhear de suas páginas, a secura agreste das almas que caminham sem destino. Almas secas, esturricadas por dentro, rochosas. Em seu riso minguado há o pó das estradas eternas.
Esse Livro também é um exílio.
V. ( Sobre Memórias )
Numa das histórias contadas, no interior difuso do Livro, há dois jovens artistas que se embrenham em uma floresta.
No desejo intenso de estarem juntos sem serem vistos, arrastados por seu instinto - e essa é uma vontade ancestral que pulsa nas veias - eles são levados à beira de um secreto lago: e então, de mão dadas e silenciosos, mergulham inteiros na essência impossível de um entardecer.
VI. ( Por Sobre o Livro )
Porém agora, depois de muitos cigarros e xícaras de café, a escritora reflete melhor sobre o papel da escrita: sua natureza semiótica, suas potencialidades dissêmicas.
E nessa hora o Livro poderia falar do poder barthesiano da Palavra ( uma leitura desviada de João, em seu evangelho, poderia levar a pensar o mesmo ). De que toda palavra fala acerca - nas cercanias- do poder: fala por um poder, na direção de um poder.
Que a palavra - e, por aplicação direta, a escritura - é a "Vontade de Potência" em si. Pois mesmo o Zaratustra de Nietzsche - plagio da Palavra-Logos que se fez carne - fez ouvir sua intenção de potência na palavra, ao nos dizer a fonte, a origem, a passagem; o estranho retorno.
Nesse contexto, a escritora idealiza uma cena: uma Vestal ritualiza diante de um grande espelho de prata, para acessar estranhas visões. Mas apenas consegue divisar, na superfície enganosa do metal, a figura triste e solitária de um homem, que - ela por fim se dá conta - é sua própria imagem.
( A escritura que morde o próprio rabo: figura máxima de um poder ser ).
VII. ( A Grande Ironia )
Se assim o quisesse, mesmo independente de sua escritora ( e de mim, que o leio à medida em que ela escreve ), o Livro falaria - em seus interstícios - sobre o poder místico que as antigas civilizações devotavam à escrita, em seu peso religioso mais fundo.
Nele, a escrita seria abordada como a grande ironia das realizações humanas.
Tremendamente mais frágil que o homem, propensa à destruição pela ação das traças e do tempo, a escritura ganha uma perenidade que zomba da vida: ela resiste à morte de quem a produz, ultrapassa-o.
Nela estão os segredos da morte: o homem, força agente e autônoma, reduz-se a cinzas, enquanto ela atravessa os tempos sempre dizendo e significando cada vez mais.
Sim, esse Livro seria uma grande ironia.
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