sexta-feira, 15 de julho de 2011

Entre meus inúmeros cigarros, eu aguardava o eco de teus passos,em meu pátio interior.
Alta como a Lua hoje é, eu rumava escura e densa pelos labirintos da distância: em tudo havia um fragmento de teu nome, tua voz soava no rumorejar das águas...
E eu, a tecer-te as vestes, aguardava: na incerteza de teu retorno, na medida parca de minha esperança...
Eu atirara-me inteira na banalidade das coisas, apenas para esquecer-me da dor de ainda não estares aqui...
Mas hoje sei que não teci em vão: e que minha espera não fora o absurdo da loucura... 

domingo, 10 de julho de 2011


Neles, havia o leve acento do adeus... Mesmo enquanto sorriam, alheios àquilo que os ligava, certa sombra perpassava os gestos. Não saberiam definir de pronto o raro elo a fazer de um a extrema continuação do outro: sabiam apenas, e isso os encantava. E houve um tempo sem perguntas, onde tudo fluía natural como águas, como a brisa das palavras e do olhar. Se houve um choro, esse aconteceu em comum, tal qual quando almas aflitas e idênticas se cruzam por longos caminhos. 
Mas um deles resolveu dizer o que ali já havia. E as palavras são malditas, elas desacertam nosso passo em direção a qualquer paraíso. E então se perderam...
O outro, que estava, aos poucos, ganhando mais leveza e luz, tornou-se grave, como quem cuida de uma doença que exige certa cautela. E o que era ele, agora outro, acamava-se. Via-se doença: suas forças minadas pelos dias, sua seiva esvaindo na ardência desse vão...
E o que fora encontro, passou, lentamente, a ser injúria e desdita.

O Desvio das Águas









Éramos água. Eu e tu. Naquilo que sua natureza incerta e esquiva 
comporta.
Não falo da água empalhada dos copos, com sua rigidez de morte.
Falo das águas convulsas que brotam diante do espanto virginal da terra.
Falo da água em seu poder de esgueirar-se por entre as coisas do mundo.
E éramos assim: líquidos e cristalinos, um diante do outro. Concebíamos,
mesmo que abstratamente, a profundeza que nos havia...
Tu eras a fonte e eu, o rumorejar intermitente. Eu banhava meus 
olhos diante de ti como quem se procura no inverso dos rios, 
na contramão de seu destino. E eu fizera morada em tuas superfícies,
em um tempo em que, à semelhança do desespero das mãos,
nossos cursos se enlaçavam.