quinta-feira, 2 de junho de 2011

Antropogênese





Aninhado na praia de escombros,
observo o giro do astro
enquanto a sombra do rosto foragido repõe a questão: E se a criança jamais existiu? 

Juliano Garcia Pessanha 


Desde cedo o mundo me assombrara. Tudo era vertiginoso em sua aparição...Para meus olhos ainda repletos do frescor da descoberta, o mundo era um lugar de espantos e suaves epifanias. Até mesmo meu corpo, que eu aprendera a manipular segundo a lógica dos desejos, era uma fonte borbulhante de descobertas e revelações... Além da investigação aplicada a minha natureza mais primeira, havia outro fascínio: a fatal atração pelo nocivo. Deixa-me explicar: eu, movida pela curiosidade própria dos recém chegados, sentia-me seduzida pelas formas de vida mais brutas. Eu percebia que, no seio do grotesco, palpitava uma vida que era espelho da minha. Era impelida por essa intuição que eu colecionava insetos e, com uma volúpia febril, abria-os, esquartejava-os. É que eu queria encontrar a essência vital que os determinava: eu queria defrontar-me com a vida e seus mistérios no coração do absurdo. E as sombras festejavam, no seio da terra, essa ânsia primitiva e pulsante revestida de infância. Mas não havia somente o grotesco. Havia também o fascínio pelo luminoso. E, ao sair das regiões mais baixas à procura de luz, defrontei-me com a criança... E a criança morava do outro lado da rua. Seu espaço era arquitetado com a matéria prima da existência. Ela era a personificação de um modo-de-ser que ainda me era interdito. E, inconsciente de minha condição de densidades e treva ( pois eu trazia em mim uma chaga anterior a mim mesma), aproximei-me da criança e, então, principiei a resplandecer... E esse encontro guardava os segredos de que hoje sou feita. E é somente por recordá-los que agora me reconstruo. E ela foi para mim um local seguro no qual atracar. Ela foi a visão arquetípica de uma ausência que constituiria meus caminhos, uma brecha da qual eu fora feita e para a qual eu rumaria continuamente. Minha vida, a partir da criança, seria uma marcha ininterrupta rumo ao lapso, um caminhar vertiginoso em direção ao fim. Mas o Deus disse: Fiat Lux, e findou-se o primeiro dia... Agora, em sua presença, meus dias eram cheios de suavidades e transparências. Mas não era sempre que a criança estava diante de meus olhares. Sua vida era cheia de reservas e silêncios. E foi a partir dela que aprendi a silenciar diante do impossível. É que há, em cada um de nós, um reino obscuro que nenhuma fala pode delatar. Sobre essa impossibilidade, eu, agora, soerguia meus instantes; e havia um acento poético a vibrar pelos ares...e ELE, que havia separado as águas entre o abismo e a expansão, que me havia apresentado a luz, marcou a criança como o luzeiro de meus dias, a indicar as épocas, os períodos e as estações. E tudo era virginal e  fresco... Isso porque uma verdade ancestral já se pronunciava na textura do que sou. Mas eu nada sabia acerca de ancestralidades, texturas e gestos tardios, pois acreditava viver na essência das horas, onde a comunhão com o Deus era profunda... e a criança, tranquilamente, mergulhava comigo no coração d’O Impossível. 
E o Deus chamou essa impossibilidade de Céu. E veio a ser manhã e veio a ser noitinha: segundo dia. E hoje, eu, que sou uma voz a errar, preciso dizer-te: sou uma construção moldada a partir dos fragmentos da criança que houve. Em seu lugar arde uma ausência... e por isso sigo a corroer os ossos dos dias na intenção de saborear aquele gosto primeiro, no centro vivo do olhar da criança que já não há...E talvez se dê o raiar de um terceiro dia, em que me seja permitido traçar uma espera: um frágil esboço para alegrar os olhos da minha criança ancestral...e tardia..



Do Ardor

"Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa.
 Seus gestos tornam-se brancos
e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la."
 ( A fuga, Clarice Lispector )


... aqui estou: há muito espero pelo teu chamado. As antigas areias que suprimiam meus gritos não tiveram êxito: e então, entre inúmeros fumos e olhares no interior da noite ( que nos engendrou e estabeleceu ), pronunciaste meu nome mais secreto e esquecido... Há um grito nas entrelinhas do que te escrevo: vê se consegues agarrá-lo com tua mão. Procura suster-me como uma idéia criada no profundo de teus abismos: pois fui despertada de uma região pantanosa e secreta. E te é impossível pronunciar o nome de onde eu jazia adormecida: mas vem, segura minha mão nessa treva e sigamos nosso protelado caminho. E quanto te tenho aguardado! É no interior dessa palavra que não dizes que reside meu intento: pois é de fogo e ardências o que tenho guardado para ti... Mas nem sempre fui assim: antes de teu chamado, eu era aquela que convivia com a amenidade parca das coisas: eu preparava o lanche de crianças e anotava recados ao telefone. Mas vieste como um vento em chamas e reduziste a cinzas meu trabalho de superfície: no dia que me invocaste, eu devorei nossos filhos e incendiei as impossíveis agendas. Atirei pelas janelas os antigos álbuns de retrato: é que depois de ti eu nunca mais me reconheceria... E é nas galerias desse meu canto, em seus ocultos corredores, que te espero. E sei que dirás de meu canto o monótono que é: é que minhas palavras se erguem a ti como um remoto e gregoriano rito. Porém, não é em latim que te canto, que é a língua dos santos, é em uma espécie de etrusco: algo impreciso e pagão como a sanha desse nosso amor...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Circe

" Meu canto é este tecido vivo  - nu -
que ofereço à tua alma."










Hoje, lembrei-me de ti, Augusto... Lembrei-me de tua voz resplandecente; de tuas mãos suaves a conduzirem-me por meus descaminhos; de teu caminhar ritmado (teus movimentos eram a poesia de teu corpo...).
Lembrei-me de teu olhar para o infinito de minh’alma, dos teus discursos sobre a natureza do amor e dos homens; do teu sorriso infantil e sem culpa... As tuas canções; da modulação de teus gestos; de tudo o quanto é teu e que ainda me plange. 
Eu, aqui em meu cárcere, passo os dias a tecer a trama de minha fala para que o tempo transcorra ameno na tua ausência.
Enquanto ganhas o mundo na esperança de encontrar-te, eu permaneço aqui, tecendo e destecendo minha linguagem, para depurar-me à tua espera.
Espero, meu amado Augusto, que nada te desvie da rota de ti mesmo. Que nenhum canto incerto faça divagar o teu olhar; que não te percas nos descaminhos de tua busca. Espero, enfim, que ao regressares tenhas te concluído e que, concluso, te possas ver inteiro.
Eu já não sou mais inteira. E é para preencher os meus vazios que me construo e desconstruo, que ergo à minha volta as paredes de um labirinto sintático, pois, diferente de ti, quero perder-me no falsear de minha língua-teia. Tornei-me a tecelã e o inseto incauto de minha própria rede. Pois se tu te completas na busca, eu, de minha parte, só conseguirei encontrar-me ao perder-me...
Que, ao esquecer-te, eu te transforme em algo semelhante aos hiatos de minha imprecisa malha: um lapso no vazio do meu tear...
Pois tornei-me a tecelã e o inseto incauto de minha própria rede. E é para preencher o meus vazios que me construo e desconstruo, que ergo à minha volta as paredes de um labirinto sintático... Eu já não sou mais inteira (...).
Espero, enfim, que ao regressares te concluas e que, concluso, te possas ver inteiro. Que nenhum canto impreciso faça divagar o teu olhar; que não te percas nos descaminhos de tua busca. Espero que nada te desvie da rota de ti mesmo.
Enquanto ganhas o mundo na esperança de encontrar-te, eu permaneço aqui, tecendo e destecendo minha linguagem, para depurar-me à tua espera. É que,  aqui em meu cárcere, passo meus dias a tecer a trama de minha fala para que o tempo transcorra ameno e m  nossa ausência.
É que lembrei-me das nossas canções; da modulação dos meus gestos; de tudo o quanto foi nosso e que ainda me plange. De meu olhar  para o infinito de tua alma. A tua voz resplandecente; do olhar suave a conduzir-me por estranhos descaminhos; de certo caminhar ritmado ( movimentos que eram a poesia de meu corpo...). Hoje, Augusto, lembrei-me de ti... – perdoa-me: foi um lapso, no vazio de nosso tear...