terça-feira, 19 de abril de 2011

A Viagem

...não mais isso: não mais a marcha absurda de tudo rumo ao inevitável fim! Não mais a espreita, a espera: os anúncios, nos movimentos aleatórios e vãos das estrelas... Talvez eu tenha observado por demais a ciranda dos astros em sua dança hipnótica. É que provei da equidistância entre o improvável e o impossível e isso me tragou por completo a razão: talvez, talvez... E enquanto te canto esta esgrima entre mim e as palavras, tudo talvez já esteja em rota de colisão: em
algum lugar prótons, nêutrons e elétrons lançam seus feitiços e fascínios sobre a idéia que tenho de mim... E quero romper os limites e as zonas fronteiriças do dizer, para agarrar a Coisa em seu bruto despertar ( há lascívia no que digo! )... E esta é uma viagem rumo ao profundo, ao avesso: onde se possa, por fim, desvendar o lado pulsante do que digo - atrás de minhas palavras há um objeto a pulsar angústias, um objeto que pulsa além de quaisquer sentidos: é isso o que quero te dar! Abre tua mão e recebe essa centelha viva que há em mim: Eu, que estou em todos os caminhos: no nascer do trigo, na violência das águas, na voragem do amor... Vem! Há sinos que dobram ao redor deste vôo em direção ao centro vivo do que digo - mesmo fugidia, espero que me possas alcançar... Desce comigo por estes penhascos rumo à pergunta que jamais me fiz: revela-me o lado repleto de anseios e fomes; estou faminta de mim! Eu: que reconstruo estas linhas com o aço de minha voz, sobre os abismos da morte: que grito, diante das fomes e dos delírios desse deserto que somos! E que haja, em tua alma, o pão necessário para esta interminável e feroz viagem...rumo ao nada!